4 de nov de 2006

:: Quem não te conhece que te compre! ::

Ato I


(comédia ambientada no século XVII)

Personagens

Fulano: empresário famoso, empreendedor.
Cicrano: rapazote, servo de Fulano.
Beltrano: sócio de Fulano, também empresário.
Taberneiro: dono do estabelecimento, chamado pelo nome de sua função.
João Ninguém: tesoureiro de Fulano e Beltrano.
Zé das Couves: o misterioso sócio do grupo.

Criados, mensageiros etc


...

CENA I

(Uma taberna. Hora do almoço. Entram Fulano e Cicrano. O lugar está bastante movimentado.)



FULANO – Veja, rapaz, nossa mesa de sempre está vaga!


CICRANO – É melhor que façamos com que deixe de estar!
(ambos riem. Nesse momento chega o taberneiro)

TABERNEIRO – O carneiro hoje está ótimo, meus amigos. Sugestão da casa.

FULANO – Você diz isso porque não é um carneiro. Aliás, se fosse um carneiro, nem diria nada!
(Cicrano finge não ouvir. Fulano e o Taberneiro riem)

TABERNEIRO – Você, fulano, sempre tão bem-humorado! Hás de viver eternamente! Coisa que um bom vinho há de garantir, posso assegurar-lhe!

FULANO – Pois traga do teu carneiro. E do teu vinho! Eu e Cicrano hemos que festejar!

TABERNEIRO – Poderia eu, seu criado, perguntar-lhe o motivo de tal festim?

FULANO – Certamente! Eis que nós, Cicrano e eu, passamos agora a responder pela Panificadora Real, falando direto com sua majestade!

TABERNEIRO – Mas meus parabéns! Como deu-se isso?

FULANO – Eis que eu e Cicrano – sim, mérito dele também! – estivemos a conversar com o panificador real e este, interessado em nossa magia da comunicação, interessou-se por demais em nossos atributos propagadores. Pois então contratou-nos, a mim e a Beltrano que bem conheces, para fazer-se saber que é ele quem leva ao forno tão magníficas peças da panificação. É com orgulho que, já neste mês, faremos saber a todo vilarejo a autoria de tão magníficas obras de arte, pois é o que são!

TABERNEIRO – Mas ora! Tal data bem merece celebração que lhe seja justa! A todos aqui presentes, vinho por conta da casa!
(gritos e aplausos)

FULANO – Vês, Cicrano? Eis as alegrias que a comunicação há de lhe dar! Bem sei reconhecer que és participante disto! Tuas idéias e teu empenho trouxeram-nos até aqui. Sabeis que não hei de esquecer vosso esforço e dedicação. Estamos juntos nessa empreitada, e juntos permaneceremos até que os dias nos digam que não!

CICRANO – Faz-me muito feliz, senhor, uma vez que sei do quanto dediquei-me para que melhores dias enfim despontassem em nossa jornada. Ainda que sejas novo em tua empreitada junto a Beltrano, percorri eu longo caminho até aqui. Congratulei-me junto a ele quando soube de tua vinda, e eis que vejo agora que tal escolha foi acertada: regozijemo-nos, pois os tempos agora são nossos!

(o taberneiro chega com três taças de vinho. De pé. os três brindam, gritando em uníssono)

- À nossa!

(saem)


CENA II

(Gabinete de Beltrano. Entra Fulano.)


BELTRANO – Pois não morrerás mais, caro Fulano. Agora mesmo pensava em ti!

FULANO – Sinal de bom agouro, devo crer, tendo em vista as notícias que me chegam!

BELTRANO – Sem dúvida, caro amigo. As novas sobre a Panificadora sem dúvida são as melhores que se pode ter. Não lhe falei do quanto valiam as palavras de nosso bom Cicrano? Eis aí o que nos rendem!

(Fulano, subitamente, assue um ar pesaroso)
FULANO – Pois é fato que tens razão. Todavia, não vejo entre nós lugar para o bom Cicrano.

BELTRANO – Como é isto, visto que desde há muito tempo vem ele semeando junto a nós os frutos que agora colhemos?

FULANO – Isto é bem verdade, eu sei. Entretanto, vejo que o bom Cicrano não mais aspira o mesmo futuro que nós, tendo entregado a si mesmo para artes outras. Vejo que talvez não sintas assim, como sinto eu que próximo a ele labuto dia após dia, mas tenho por bem que talvez seja este o momento de dispensar de junto a nós sua presença.

BELTRANO – É verdade isto que me falas? Não é fato que do que conquistamos tem Cicrano grande participação? Não é com ele que lhe cabe cear sob todo sol, sob toda intempérie, ainda que há pouco tenhas vindo juntar-se a nós?

FULANO – Sim, bem sabeis isto. Entretanto, creio que seu tempo hora se cumpre. Se comigo concordais, peço vossa bênção para que de nosso meio dispensemos tal obreiro. Faço saber, ainda que ele próprio não o saiba, que isto lhe é para o próprio bem.

BELTRANO – Está Cicrano a par de tais novas?

FULANO – Jamais. Devo confessar que, em seu entendimento, está mais próximo a nós do que nunca, sabedor que é dos momentos difíceis que atravessou em vossa companhia e, mais recentemente, em minha também. É sabedor que mesmo que agraciado com tão poucos recursos tinha em vista o momento que agora deslumbramos. Entretanto, ainda assim, vejo com bons olhos que sigamos nosso caminho sem contar com sua permanência.

BELTRANO – Sendo esta vossa decisão, omito-me de pronunciar quaisquer palavras. Surpreende-me que assim seja, sendo o rapaz alguém a quem prometi trazer sempre junto a mim em minhas empreitadas, e mesmo ao assegurar-lhe lugar quando de vossa contratação. Entretanto, não me é confortável opor-me à decisão hora tomada por si. Que faça o que lhe aprouver, que com o rapaz entedo-me eu. Ainda que seja não recebendo-o quando a mim procurar.

FULANO – Agradeço-lhe o voto de confiança, nobre amigo, e eis que logo venho avisar-lhe quando o fato estiver consumado.

BELTRANO – Pois lamento eu que seja assim. De qualquer forma, ao sair, peça que venha a camareira contatar-me. Eis que não agüento mais estes mesmos acepipes!

(saem)



CENA III


(Cicrano sentado à uma mesa, escrevendo. Entra um mensageiro)


MENSAGEIRO – Nobre Cicrano, eis que vos trago notícias de alta ordem!

CICRANO – Pois não tardeis a falar! Cumpre que me diga logo teu intento, já que pronto estou a atender!

MENSAGEIRO – Acalmai-vos, pois as novas que lhe digo dizem o oposto. Eis que são ordens de dispensa, que clamam que vós permaneçais em vossa residência, visto que não encontras mais valia junto aos servidores reais.

CICRANO – Não há outra que não que entendeste mal, nobre mensageiro. Sou eu servidor de longa data, de chuvas e trovões, de vento e de geada. Por certo o que dizeis é que cientes estão de minha condição de penúria e que por isto não posso trabalhar. Entretanto, à disposição coloquei-me de imediato; desta forma, creio que o que trazes é ordem de trabalho e jamais de dispensa.

MENSAGEIRO – Acaso julgas que não sei ler? Bem sei as novas que lhe trago. Dispensado estás de qualquer trabalho. Permanecei em vossa casa, ou à busca de nova colocação, como lhe aprouver. Certo é que, entre os servidores reais, não tens mais lugar.

CICRANO – Não se volte contra mim vossa fúria, ó mensageiro, mas estranho que tais novas tu estejas a trazer-me. Acaso não fui eu quem por tanto tempo suportou calúnia e opróbrio? Acaso não suportei pobreza e privação? Dizei-me, pois, quem é que vos manda com tal presteza e tão pouca amizade?

MENSAGEIRO – Creia, caro Cicrano, e se bem vos conheço hás de ficar desapontado: quem me manda não é outro que não Fulano. Sim, Fulano, vosso chefe, vosso confessor, que tantas ceias e cumprimentos compartilhou consigo.

(Cicrano, incrédulo)

CICRANO – Não posso crer! Não é ele meu confessor? Não é a ele que sempre contei meus dilemas, meus revezes e quem sempre a mim disse “força, eis-nos juntos?” Como pode tal homem agir como se nem ao menos me conhecesse, enviando por um mensageiro tal notícia nefasta? Custa-me a crer, devo dizer-lhe. Por favor, certifique-se de que é isto, e venha a mim trazer confirmação. Se bem o conheço, há de, ao menos, dizer-me tal coisa cara a cara, jamais por meio de um mensageiro!

MENSAGEIRO - Sim, devo confesar-lhe que também a mim causou grande surpresa tal atitude. Talvez devesses, prontamente, buscar saber o que de fato aconteceu. Como bem sabeis, nada a mim dizem sobre cousa alguma.

CICRANO - Tens razão! Farei isso tão logo venha a alvorada. Certamente há algo a descobrir em tal cenário.


•••


6 comentários:

Me disse...

Hummmmm... ótimo!!!!! Ótimo!!!!!
Muito bem bolado (grande novidade...).

Alguém disse...

Genial. Dizer mais o que?

EBL disse...

Na linguagem do futebol chamamos isso de uma tremenda "trairagem".

Cylo disse...

Inspirada em fatos reais. Os nomes dos personagens foram trocados, não para manter a privacidade mas, para se adequarem melhor à linguagem. Execelente por sinal.

Forte abraço, brother.

Gigi disse...

[Clap, clap, clap, clap]
Mtos e mtos aplausos pra vc meu querido!!!!!
Cada vez me surpreendo mais com a sua criatividade!!!!

Bjsssssssssss

P.S. - Vê se deixa um comentário lá pra mim vai???
Não são tão boas quanto seus textos... mas são de coração!!!

Amigo do Cicrano disse...

Emocionei-me. Ainda que impossível fosse tal crueldade dos personagens, contem formas e traços que nos levam a crer que trata-se mesmo um facto real! O ser-humano não tem limites. Alguns, na falta de caracter. No seu caso, no talento. (Aplausos!!!)Abraço