12 de nov de 2006

:: Quem não te conhece que te compre! ::

Ato II


CENA I

(Gabinete de Fulano. Entra a criada.)


CRIADA – Meu senhor Fulano, eis que encontra-se aqui Cicrano procurando falar consigo. Parece-me bastante perturbado, e arrisco-me a dizer que jamais o vi de tal maneira.

FULANO – Oh, sim, há que se compreender. O rapaz foi dispensado de nossa empreitada através de um mensageiro...

CRIADA – O senhor quer dizer que lhe deu o dia de folga? Sem dúvida que és deveras bom, meu senhor. Tanto que não entendo como o bom Cicrano pode estar tão transtornado.

FULANO (desconcertado) – Bem... sim, é isso mesmo. Na verdade, dei-lhe mais que apenas um dia de folga. Mas sabe como é, querida criada, as pessoas nunca estão satisfeitas com aquilo que lhes é ofertado.

CRIADA – Sim, meu senhor. E é por tal desprendimento que lhe admiro. Ainda hoje, ao ouvir as notícias, soube que ganhaste o direito de representar os Panificadores Reais. Saiba que tal aconteceu em recompensa à tua índole!

FULANO – Estiveste a ouvir notícias durante vosso período de trabalho?

CRIADA – Sim, meu senhor. Creio que é importante que eu mantenha-me informada para lhe servir melhor.

FULANO – Sem dúvida! Agora, por favor, traga-me vinho. Diga Cicrano que não posso atendê-lo, que estou ocupado com qualquer coisa. Ah, e ao sair, peça que João Ninguém venha estar comigo.

CRIADA – Certamente, senhor. Com sua licença.

(alguns minutos passam, e chega João Ninguém)

JOÃO (tem a fala difícil, pronuncia as palavras quase sem abrir a boca) – Mandou chamar-me, Fulano?

FULANO – Sim, João. Peço-lhe que de imediato dispense os serviços da criada que foi chamar-lhe.

JOÃO (supreso) – Mas senhor, que hei de dizer a ela? Por que a dispensas?

FULANO – Não sei, apetece-me dispensá-la. Ainda agora disse-me estar ouvindo as notícias do dia, ao invés de, por exemplo, pesquisar algum novo tipo de vinho que pudesse agradar-me. E tu não deves satisfação alguma, há que usar do poder de teu cargo! Dispensa a mulher, ou disponso eu a ti!

JOÃO – Bem sabeis que não podes fazer isso, logo entendo como brincadeira isso que dizes... Afinal, sou eu quem sei de teus gastos, despesas e daquilo que de fato declaras ao rei...

FULANO (inquieto, nervoso)– Sim, sim, é brincadeira! Bom saber que manténs o espírito jovem, caro João. Pois vá, apressa-te, que até o final deste dia não mais quero ver o rosto daquela criada.

JOÃO – Considera-a já carta fora do baralho!

(João mostra-se apreensivo, subitamente)

FULANO – Que passa João? Acaso não já o dispensei? Que fazes aqui ainda? Se tens algo a falar-me, faça-o prontamente!

JOÃO – Sim, de fato tenho. É que hoje chegou às minhas mãos mais uma intimação. Jon Doe foi até os Legisladores e intimou-nos a pagar o que lhe devemos...

FULANO (rindo) – Ora, João, é apenas mais um dentre tantos! Não entendo por que ficas nervoso! Basta que tratemos como sempre: adiemos, adiemos! Não te perturbes mais, e corre a fazer o que lhe pedi.

JOÃO (aliviado) – Certamente, senhor. Com sua licença.

(saem)

CENA II

(recepção do estabelecimento de Fulano. Cicrano está sentado. Entra a criada)

CRIADA – Senhor, lamento dizer-lhe que Fulano não poderá recebê-lo agora. Entretanto, pediu-me que lhe dissesse que tão logo possa atender-lhe, fará com a máxima alegria.

CICRANO – Pergunte-lhe, por favor, se não pode conceder-me apenas cinco minutos Decerto não demorarei mais que tanto.

CRIADA – Lamento, mas ele deixou bem claro que não poderá recebê-lo e pede que volte outro dia. Disse, também, que sente muito por sua dispensa, e que anseia por conversar consigo para que não haja quaisquer desconfortos entre vocês.

CICRANO – Certamente ele lembra-se que a mim prometera estar sempre com lugar garantido neste empreendimento, não é?
CRIADA – Como poderia eu responder a isso?

CICRANO – Tens razão. Ao menos poderia Zé das Couves me receber?

CRIADA – Verei junto a ele. Mas bem sabeis que não é pessoa confiável...

CICRANO – Tu não és a primeira a falar-me tal cousa. Tens fundamento para afirmar isto ou apenas repete o que ouves como um papagaio mal-educado?

CRIADA – De fato, a mim, nada Zé das Couves fez. Entretanto, de tanto que ouço, eis que encontro-me deveras assustada diante de qualquer assunto a ele concernente.

CICRANO – Pois que com ele entenda-me eu. A ti, basta que lhe comunique minhas intenções, o que agradeço se fizerdes prontamente.

CRIADA – Pois não. Vou agora mesmo até lá.

CENA III

(Gabinete de Zé das Couves. Entra a criada.)

CRIADA – Meu senhor, está aí o jovem Cicrano querendo falar-lhe...

ZÉ DAS COUVES – Pois bem, mande-lhe que entre!

CRIADA – Pois não.

(A criada sai, entra Cicrano)

ZÉ DAS COUVES – Cicrano, meu rapaz, já sei do que lhe aconteceu. Como pode ser isso, visto que és tu um dos que sempre junto a nós guerreou, e merecedor és dos bons tempos que sobre nós ameaçam despontar?

CICRANO – Muito me surpreende vossa reação, e entristece-me que seja esta a primeira oportunidade que temos de falarmo-nos: aquela de minha dispensa. Vim até vossa presença justamente esperançoso de que alguma luz pudesses lançar sobre os acontecimentos que sobre minha vida tomaram parte nos últimos tempos.

ZÉ DAS COUVES – Entendei, caro Cicrano, que por mais que discorde eu da postura assumida por Beltrano, não convinha que contra ele me colocasse, uma vez que não seria corretao destituí-lo do poder que eu mesmo dei. Entretanto, asseguro-lhe que nenhum intento tinha eu de dispensá-lo e nem ao menos tinha isso em vista. Se quiseres, hei de conversar com Beltrano e conseguir que possas reintegrar-se ao trabalho que agora vem tanto!

CICRANO – Agradeço vossa intenção, mas tenho por bem que essa não é a maneira correta de procedermos. Venho, portanto, pedir apenas que da dívida que tens junto a mim possa eu ver o ouro, uma vez que mesmo para manter-me não possuo espécie alguma.

ZÉ DAS COUVES – Pois firmo aqui minha palavra junto a ti que necessidade alguma passarás. Mandarei que entreguem pessoalmente a quantia que lhe devemos e mais ainda: tratar-te-hei como a de um de meus funcionários, mantendo-o nos pagamentos regulares que faço a cada mês!

CICRANO – Mais uma vez lhe agradeço e peço que, em nome de um respeito que sempre tivemos um para com o outro, honre tal compromisso. De fonte alguma posso eu dispor além desta.

ZÉ DAS COUVES – Digo ainda outra coisa: hei de descobrir o motivo que levou à tua dispensa, e tão pronto saiba de qualquer nova, farei com que saibas de imediato.

CICRANO – Tens toda a minha consideração por assim procederes, caro Zé. Não mais intento roubar-lhe o tempo, então me despeço confiante em tua palavra.

ZÉ DAS COUVES – Vá, amigo, e peço que mande que um mensageiro, em teu nome, venha estar comigo já na próxima semana!

(saem)

•••

4 comentários:

Jota disse...

Hahahaha... cara, irado!

Tô rindo muito aqui, imaginando os "personagens" da vida real. rsrsrsrsrsrs

Abração irmão!

Hummm disse...

Que sua peça passe aos palcos e o ouro venha às suas algibeiras. Agora que conheço mais de perto a corte, lanço garrafas ao mar e aos rios (incluindo Pinheiros e Tietê). Há embarcações no horizonte, acenando cruzeiro de 3 meses pelas terras de Olivettos e Nizans. Alvíssaras, porém de prazo curto. Busco viagens mais longas. Enfim...que bons ventos soprem a favor dos bons e varram de vez os outros para baixo do tapete da história.

Grande abraço


Está MUITO BOM!!!! Mesmo.

Me disse...

É, Zé das Couves... tendes a chance de lembrar do Cicrano na semana combinada, e serdes, pelo menos uma vez, digno do restinho tênue de respeito que esse ilustre personagem, embora incrédulo, ainda tem por vós.
Paboemepaba!
Estou curiosa com o Ato Final. Como será que isso vai terminar?!

celmo disse...

muito bacana vc esta d parabéns