2 de dez de 2006

:: Lâmina de Ockham ::

Eis o que escrevo agora: floresta. O quanto matei? Que caminhos existem a partir daí? Quais não existem mais? Para onde poderia ir, escrevendo, em seu lugar, “aqueduto”? Ou “coluna”? Ou “genuflexório”?

A folha virtual à minha frente, branca e inocente, é infinita. A palavra desenhada em fósforo é a cerca entre mim e o todo. Cada uma das letras é uma guilhotina de possibilidades, é um delimitador, é o que me leva a um lugar enquanto impede que vá a todos os outros.

Criar é, mais do que tudo, destruir.

A primeira letra: F. Desta letra, solitária, já não saem barcos e seus vikings em luta contra a fúria do mar e dos exércitos inimigos, no caminho de suas conquistas. Desta letra já não se contam as histórias de ninar, com seus “era uma vez”. Não há viagens, nem planetas, nem cosmos.

Mas, da floresta, nascem elfos e curupiras. A luta de Chico Mendes. O imperialismo americano. Ents.

O quanto morre a cada letra que nasce? O quanto pode-se caminhar enlouquecido pela coerência sufocante, pelo fazer-se entender mais do que por ser entendido?
Quero, preciso, dizer tudo ao mesmo tempo. Já não mais permitem florestas nuvens com som avoado verde-água. A floresta deve ser densa, ou fria, ou devastada. Deve ter animais ou índios ou uma reserva. Deve ser verde. Deve ter árvores. Porquê?

Me devolvam o céu abaixo, dormente, despido do cálcio amalgamado de convenções febris.

Não quero viver tolhido pelo nexo. Quero o ar e a imaginação. Que venha a estrada, aberta, sempre.


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2 comentários:

Me disse...

Profunda!!!!!!! Muito boa!!!!

Evanir Pinheiro disse...

Tb não quero viver tolhida pelo anexo, quero o ar e a imaginação. que venha a estrada aberta sempre!!! Esses versos me tocaram muito, pois retrata a essencia de minha alma. Adorei!! vc é muito bom!!! Beijos! Evanir