21 de fev de 2007

:: Hiperalgesia ::

Porque preciso refletir. Pensar mais um pouco. Deixar seguir algumas coisas que começaram, interromper o que anda desenfreado.

Porque preciso esquecer. Porque preciso lembrar de tanto que já foi e resgatar sentimentos soterrados. Porque hei que entender que há coisas que são, coisas que podem ser e ainda outras que nunca serão. Porque preciso aceitar que há esquinas que nunca vou dobrar, pessoas que não vou conhecer e lábios que não vou beijar. Porque preciso saber que, por mais que dure, nunca é tempo o suficiente. Porque preciso escrever, deixar correr, expurgar. Porque preciso pintar, representar e cantar tudo o que não é meu. Porque preciso criar do que me dão, e se nada me dão, então é o que tenho. Porque não quero mais me conformar. Porque não tenho anos que cheguem para aprender tudo o que quero, porque não sou forte o bastante para negar o que sinto, porque não sou inteligente o suficiente para aceitar que foi melhor assim. Porque não importa o que digam, ouço o que penso. Porque não importa o que pensam, digo o que acho. Porque poucos se importam com o que acho. Porque pouco importa.

Porque me irrita a falsa indiferença, porque me irrita o Jogo do Contente, porque em fotos todos são Polianas. Porque há os carentes de atenção, que dizem não se importar. Porque Chaplin roubou a identidade de sete em cada dez membros do Orkut e porque a midia é tendenciosa. Porque ninguém se importa com João Hélio mais do que com Phuket, murmurando um “que coisa terrível” entre uma garfada e outra ao jantar. Porque Gaza é longe e as favelas são em outro mundo. Porque incendiaram o ônibus e Jamie Foxx ganhou um Oscar. Porque a tinta não deixa meus pincéis e Pollock nem tocava suas telas. Porque me irrito com qualquer ruído e Beethoven era surdo. Porque aos trinta anos tenho um site, enquanto Cristo aos seus tentava salvar os judeus e Hitler matar tantos quanto pudesse. Porque engordo com os enlatados americanos da TV a cabo e Lance Armstrong venceu o Tour de France sete vezes. Porque ainda não conquistei minha Musa e Alexandre tomou meio mundo. Porque bebo leite em pó e Genghis Khan bebia o de éguas, porque tenho preguiça de ir à locadora e Gabriele Andersen completou a maratona, porque uso uma calculadora e Stephen Hawking mal pode mover-se. Porque não consigo parir meu livro e Paolini estréia seu filme. Porque a passividade me enlouquece, a rotina me enlouquece, os mesmos rostos, sorrisos e o café da garrafa térmica. Porque odeio Lemmings, exceto os que cavam. Porque todos conversam com os amigos da Austrália, mas não sabem o nome dos vizinhos. Porque o inconformismo é moda, os antidepressivos são charme e o ódio a si mesmo virou estilo de vida.Porque ninguém sabe o porquê.

Porque eu preciso saber aonde isso vai chegar. Porque eu preciso entender. Porque preciso que seja pra mim, por mim, do índice ao epílogo.


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16 de fev de 2007

:: Síndrome de Anton ::

Por favor,

não trivialize as amizades, apenas para aumentar o seu álbum de figurinhas. Não banalize os beijos, dando-os a quem mal conhece. Não desvalorize o sexo, fazendo de si algo tão casual como o próprio. Não defina-se pelo que ouve a seu respeito, não concorde com a maioria apenas pelo medo de ser uma voz solitária, não conforme-se com o status quo ou com as coisas que são apenas porque são.

Não pense de um o que ouviu de outro, não conclua por não querer mais pensar, não continue só porque já começou. Não troque a dúvida por qualquer certeza, não abra mão das perguntas porque alguém já tem uma resposta. Não goste apenas por estar na moda, não discorde apenas para não concordar. E, mais do que tudo não ouça tantas vozes que a sua já não se faça ouvir.
Seja.

De mim, pense o que quiser. Mas pense.

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9 de fev de 2007

:: Grécia ::

Neste berço que deu ao mundo mais de 51 mil palavras, procuro aquelas que preciso para lhe dizer; e então, por fim, poder dizer as do sonho: "é minha!"

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2 de fev de 2007

:: Fora ::

Eu tive um sonho.
Já contei?

Sonhei que podia fugir,
e via então o que nunca vivi.

Havia sol como não há aqui,
nos dias que há aqui.

Via água, via luz, via estrelas.
Via láctea.

No sonho que tive, lhe encontrei.
No sonho que tive mas não contei.

Conto agora, que não lhe olho nos olhos:
foge-me a ousadia.

Atrás deles é que está o meu sonho,
e o sonho que tenho é você.


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