25 de mar de 2007

:: Pirandello ::

Tudo bem. Minha vez.

E você, quem é?

Aprisionada em seu terninho, sob o sol de quarenta e dois graus deste Rio de Janeiro, achando que está em Londres ou em qualquer cidade européia onde o sol não tente lhe estourar a cabeça? Quem é você, que almoça todos os dias com seu ticket-refeição e vai embora com o vale-transporte, esperando ansiosa o final de semana para ir ao cinema com a carteirinha falsa de estudante? Quem é você, quando a luz da sociedade não lhe alcança? Quem é você, andando apressada pelas ruas, preocupada em resolver um problema que disseram ser seu? Quem é você, que fala baixo e olha para os lados? Que pede ar e afasta o cabelo dos olhos quando a brisa bate? Que diz procurar o amor mas gosta de posar de fêmea-alfa?

Então me diga: você gosta mesmo de música clássica? Sabe o que é um oboé? O que leu realmente de Jung, Kant, Nieztche, Kirkegaard? Qual o último volume de “In Search Of Sunrise”? O que degustou de Ferran Adrià? Sabe o que Proust quis dizer enquanto buscava o tempo perdido? Por que finge entender a alma de Pollock ou os traços de Basquiat, quando nem os próprios preocupavam-se com isso?

Eu sei por que você é assim. Eu sei por que se fez assim. Eu sei por que precisa pensar que é melhor do que eu.

Eu sou quem olha pela janela e flagra o assalto. Sou a madeira e o chão que ela cobre. Sou o vizinho e a porta fechada. Sou alguma luz e uma madrugada adentro. Sou a árvore que cai sem ninguém saber, e o som que não se sabe se ela produz. Sou quem procura o lugar onde ninguém está, para saber se ele existe quando ninguém está olhando. Sou a vitrine e quem está por trás dela. Sou um punhado de letras, e algum sentido. Sou sem sentido. Sou sentido. Sou ar rarefeito, sou efedrina, sou quem olha para a garota na esteira. Sou a tinta que cobre a parede, sou fel, sou a tontura da labirintite. Sou o inconformismo que o papel não suporta, sou mais vírgula do que ponto, sou Mandrix e Sonrisal, sou final e et cetera.

A sua pretensiosa segurança em dizer quem é lhe faz diferente de mim.

Não sei quem sou; eis porque sei quem sou.


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