27 de abr de 2007

:: A milha ::

E chega o momento em que, então, me torno apenas outra daquelas pessoas que você resolve ignorar. Um pensamento incômodo no canto da memória, incapaz de ser eliminado: como a mosca que, de tanto insistir, pensa ser capaz de atravessar a vidraça e ganhar a liberdade.

Coloque-me para falar o que tenho a dizer, porque não o falo mais a você: falo às musas que o impõem, falo porque preciso falar, porque a palavra é imperativa e o sentimento é pontual. Se há quem ouve, tanto melhor, se é você, tanto faz, se falo aos meus próprios ouvidos, evito a censura.

E chega o momento em que pouco importam as noites insones, o riso pasteurizado e a dose a mais de tequila. Ou a hora além da hora na festa. Ou o evento planejado para um encontro casual. Ou os amigos em comum que em comum, de fato, pouco têm. Ou os pensamentos compartilhados por conveniência, ou se o telefone permanece ocupado.

Apresento a você um novo momento: aquele em que tudo começa de novo; mas não outra vez.

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20 de abr de 2007

:: About Me ::

Vamos lá.

Não sou tão inteligente quanto gostaria, tão bonito quanto ambos gostaríamos e nem tão disponível quanto um signo pode insinuar. Tenho meus dias e os dias que são meus. A maioria das minhas horas não é minha, penso em muito que não me pertence, mas produzo quando não esperam que o faça. Vivo de paixões, alimento-me de suspiros, fujo do cinza das massas e da vida como ela é. Uso máscaras que não conheço, mas tanto quanto consigo ando despido de mim mesmo. Não finjo gostar de quem não gosto, não finjo saber o que não sei. Aprendi a ser franco, e não mal-educado: se não quer saber o que penso, não pergunte.


Hoje gosto de tais músicas, amanhã posso não aguentar a maioria delas: as coisas mudam, a vida muda, e mantenho-me na dança como seu parceiro. Não cobre de mim a mesma postura que tive antes a respeito das mesmas coisas. Acordei para algumas realidades, enxergo outras tantas. Quero você pra mim, mas não vou esperar o tempo que precisar: novos cenários estão sempre descortinando-se, dia após dia.


Acho dormir uma perda de tempo. Sonhar, essencial.


Tenho pessoas como mais importante que coisas, seja qual for a coisa que a pessoa oferece, mas não quaisquer pessoas: a maioria das que conheci é dispensável. As que restam, de forma alguma.


Não gostei de O Código da Vinci. Do livro e menos ainda do filme. Apedreje-me. Mas, por favor, lembre-se de que os homens são enterrados apenas até a cintura: que me importa, se a cabeça está livre?


Prefiro Halls preto, chocolate meio-amargo, vinho seco e dias de chuva. Quer dar-me um rótulo por isso?


Não sei fingir que não quero alguém para mostrar que quero. Não sei jogar. Não quero aprender. Se prefere assim, aposte suas fichas em outro.


Gostei de Wear Sunscreen. Detesto o alarde que se faz em torno dele. Considero Chaplin um gênio, mas em minha brincadeira de dizer verdades, detesto que o citem indiscriminadamente. Ouço o que ouço, penso o que penso, não procuro sua aprovação. Tudo bem por você?


Sim, sou contraditório. Ou não.


Ah, enfim... quantas linhas são suficientes para cercar alguém por completo?


Estou cansado do ser humano. Estou cansado de ser humano. Quero apenas ser, seja o que for, e se necessário. Assim.


Eis, então, quem sou. Eis o que eu sou.


Ao menos por agora.


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Publicado por Renato Alt



12 de abr de 2007

:: Gooble Gobble! ::

E você, traz o quê?

Eu trago o azul para os meninos e o rosa para as meninas. Trago os carrinhos e as bonecas. Trago a comidinha industrializada e as fraldas descartáveis. Trago a compostura para sentar e o “fale baixo”. Trago os talheres, trago a apresentadora do programa infantil e a festinha das quatro às nove.

E você, traz o quê?

Eu trago alguns anos de maternal e jardim, oito de Primeiro Grau, três de Segundo e mais outros tantos de faculdade. Trago alguns mestrados, doutorados e PHDs. Trago o fim da infância, da individualidade, evito o diálogo, afasto os pais. Trago o diploma. Sou eu quem lhes ensina a gritar “me formei! Agora já penso como meus pais e como os pais deles. Já não quero mudar o mundo, mas inserir-me nele.”

E você, traz o quê?

Trago o cartão de ponto, trago a hora de almoço, trago os quinze minutos além do horário por causa do atraso na hora de entrar. Trago o vale-transporte e o ticket-refeição. Trago a jornada de oito horas, o pensar para outros, resolver para outros, ganhar dinheiro para outros para ter algum para si. Trago o carro do ano, o novo celular e a Louis Vuitton edição limitada. Trago o PIB, o time-sheet e os prêmios de produtividade: não pare, não pense, produza!

E você, traz o quê?

Eu trago a mídia: isso é bom, isso é ruim, sobre isto você pode achar que decide. Trago a novela, trago o jornal com as notícias que criei. Trago o futebol e o “gol mil” do Romário. Trago o show tão esperado, trago o sexo casual e a cervejinha em casa. Sou eu quem diz “durma oito horas”, “ovo faz mal” e “caminhemos pela paz” (contra a violência que eu gero). Se por oito horas do dia lhes demos ocupação e oito das da noite conseguimos roubar, resta a mim dizer o que fazer com as que ficam: beba e durma. Trepe e durma. Você está cansado. Se lhe vem a revolta contra não sabe o que, brigue na rua, bata com seu carro, mate e morra: obrigado por manter tantos outros em casa.

E você, traz o quê?

Eu trago antidepressivos, trago terapia, trago rótulos: se ele não nos aceita, “maluco” e “imaturo”. Trago a sensação de inadequação, a inquietação: consigo muitos que voltam atrás. Trago a certeza da impotência, trago a garantia de impossibilidade: repense, rapaz, repense sua vida e seus conceitos. Do que adianta seu inconformismo? Guardo o que tenho para quem faz o que quero: fecho as fronteiras dos seus olhos.E você, traz o quê{Eu, em meu canto, ainda bato a lata no chão.

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5 de abr de 2007

:: Rosebud ::

La em casa há uma porta.
Entreaberta, escapa-lhe a luz.
À sua volta, sombras, sussurros,
“o que é? O que é?”
Passo ao largo, corredor estreito;
fotos de família, sonhos, o que vou ser quando crescer?
Não sou nada, não cresci, o que cresce senão os sonhos?
Faço direito porque não o fiz; no engenho de não ser engenheiro, construo os sonhos que vejo pelo caminho.
E é esse o meu caminho: de ser quem não sou, à luz da ribalta.
Escrevo minha pretensão, exponho a tensão, entenderão o que penso?
Se falo de sentido, se não exponho sentido, é a alma que me dá razão.
São os gemidos, o vinho seco e as noites sem dormir: a respiração ofegante chama pelo nome dela.


A taquicardia irradia um novo horizonte: e se for hoje? Há de ser, se eu não morrer em mim.

Há, então, ousadia: o sol fará despontar um começo, o recomeço:
de onde tudo se origina, há de começar minha vida.
Com você.
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