12 de abr de 2007

:: Gooble Gobble! ::

E você, traz o quê?

Eu trago o azul para os meninos e o rosa para as meninas. Trago os carrinhos e as bonecas. Trago a comidinha industrializada e as fraldas descartáveis. Trago a compostura para sentar e o “fale baixo”. Trago os talheres, trago a apresentadora do programa infantil e a festinha das quatro às nove.

E você, traz o quê?

Eu trago alguns anos de maternal e jardim, oito de Primeiro Grau, três de Segundo e mais outros tantos de faculdade. Trago alguns mestrados, doutorados e PHDs. Trago o fim da infância, da individualidade, evito o diálogo, afasto os pais. Trago o diploma. Sou eu quem lhes ensina a gritar “me formei! Agora já penso como meus pais e como os pais deles. Já não quero mudar o mundo, mas inserir-me nele.”

E você, traz o quê?

Trago o cartão de ponto, trago a hora de almoço, trago os quinze minutos além do horário por causa do atraso na hora de entrar. Trago o vale-transporte e o ticket-refeição. Trago a jornada de oito horas, o pensar para outros, resolver para outros, ganhar dinheiro para outros para ter algum para si. Trago o carro do ano, o novo celular e a Louis Vuitton edição limitada. Trago o PIB, o time-sheet e os prêmios de produtividade: não pare, não pense, produza!

E você, traz o quê?

Eu trago a mídia: isso é bom, isso é ruim, sobre isto você pode achar que decide. Trago a novela, trago o jornal com as notícias que criei. Trago o futebol e o “gol mil” do Romário. Trago o show tão esperado, trago o sexo casual e a cervejinha em casa. Sou eu quem diz “durma oito horas”, “ovo faz mal” e “caminhemos pela paz” (contra a violência que eu gero). Se por oito horas do dia lhes demos ocupação e oito das da noite conseguimos roubar, resta a mim dizer o que fazer com as que ficam: beba e durma. Trepe e durma. Você está cansado. Se lhe vem a revolta contra não sabe o que, brigue na rua, bata com seu carro, mate e morra: obrigado por manter tantos outros em casa.

E você, traz o quê?

Eu trago antidepressivos, trago terapia, trago rótulos: se ele não nos aceita, “maluco” e “imaturo”. Trago a sensação de inadequação, a inquietação: consigo muitos que voltam atrás. Trago a certeza da impotência, trago a garantia de impossibilidade: repense, rapaz, repense sua vida e seus conceitos. Do que adianta seu inconformismo? Guardo o que tenho para quem faz o que quero: fecho as fronteiras dos seus olhos.E você, traz o quê{Eu, em meu canto, ainda bato a lata no chão.

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