18 de mai de 2007

:: Comanda ::

Era um bar, éramos nove e eram duas da manhã. Era sexta ou sábado - não lembro e pouco importa - e era um papo que começara à toa e era muita gente que eu não conhecia. Eram histórias que não queria ouvir, prolongadas, de palavras esticadas até quase rebentar.

Era um cara à direita, foi do escritório direto pra lá. Era um outro, do banco, deixou a gravata no carro e dobrou as mangas aos cotovelos. Era uma menina de vinte e poucos, concluía ali a primeira sexta do seu MBA em marketing (ou sábado - não lembro, pouco importa), encantada que estava com Jack Trout e suas aprisionadoras 22 Leis que todo pseudo-marketeiro ainda acredita serem verdades absolutas. Era um casal casado há pouco: ele recém-contratado pela montadora alemã, ela sem saber direito quem era, ambos de malas prontas para seu novo país-sede.

Era um playboy de quase cinquenta, achando ser um playboy de quase vinte, pagando Red Label com Red Bull para todos que via, bebendo ele um alegado Blue, tentando crer que eram amigos seus os que estavam ao redor.

Era uma garota que terminava em cinco minutos o namoro de cinco anos - por telefone - e que, chorosa, encontrou o ombro de uma amiga (mais de vista que de coração) que passava ali, naquela hora: e em certas horas, só o que se tem é o que se tem.

E era eu, calado, deslocado, dispensável. Era eu ouvindo o desfile de uma miríade de valores: o novo modelo comprado, que diferia do anterior no bluetooth do aparelho de som; o final de semana gasto à frente do computador, mas que conquistou a conta; o feeling sobre o Bovespa, a edição limitada do Cavalli, o relógio que usou como entrada para o apartamento. E era um falando sobre como chegava cedo, outro dizendo que saía tarde, outro que nem trabalhar trabalhava (gole no Blue Label), e a menina que mais chorava que falava, e se falava o fazia num misto de ódio e auto-comiseração: aos berros, "porquês" indistinguíveis. E a outra, coitada, agarrando pelos pés qualquer clichê que lhe ocorresse para consolar a pobre alma.

E então, súbito, silêncio e olhos: flagrado, arrastado de volta, fui notado. Na voz do proprietário do carro novo, a pergunta em uníssono dos oito:

- E você, quer da vida o quê?

Eu?
Vida.

...