28 de mai de 2007

:: Placebo ::

Abra a boca, garoto, tome seu remédio.

Essas são as verdades de hoje, creia, aceite, revolte-se contra elas: amanhã lhe daremos algumas outras. Talvez digamos que a revolta de ontem não procede: que o que você odeia não aconteceu, nunca aconteceu, nunca existiu.

Ouça agora a música da moda, e dela tire seu comportamento, sua moda, seus gostos. Embriague-se com seu futebol e cerveja, com o paredão do Big Brother, com a última gostosa da capa. Faça côro com os revolucionários descartáveis, cite palavras de outros tempos e circunstâncias, grite contra o governo que lhe manda gritar: acha mesmo que nenhuma das suas atitudes é prevista, estimulada? Acha que as cores que pintaram os rostos de uma geração inteira foram criadas por ela?

Vai, garoto, acorde e tome seu banho: o cartão de ponto lhe espera, enquanto lá fora o sol que brilha mal tem tempo de lhe tocar a pele. O mar aparece em sua tela, em seu descanso de tela, em sua proteção de tela, enquanto o mouse exausto não volta a abrir arquivos um após o outro: veja quanto pó há nele, e é este mesmo pó que você joga sobre seus dias, resolvendo problemas que não são seus, ajeitando uma vida que não é a sua.

Perdido, à noite, ao soar da sirene, para onde ir? Felizmente o cansaço é tanto que o sono lhe rouba a lucidez: o melhor é ir para casa, ouvir meia-dúzia de verdades inventadas no jornal. Faça seu lamento pelos desaparecidos, faça seu lamento pelos seqüestrados, faça seu lamento pelos mortos: fale deles para não falar de si, dessa vida roubada que é a sua.

Anda, garoto, abra sua cerveja. É ela sua expressão de liberdade, e o vômito e a ressaca são toda a história que vai contar aos netos. A praia, as montanhas, talvez um rio, tudo isso está em outro mundo, alcançável apenas em um especial da TV.

Beije sua namorada. Perdido em quem é, continue a procurar-se nela. Unam as solidões na espera de gerar uma companhia, alguma coisa que lhes diga “é por isso, foi por isso”. Junto dela, brigue por motivos que não existem: afinal, é essa também sua condição. Selem a paz, troquem juras, acreditem piamente nas certezas que duram apenas até o próximo suspiro.

Então veja, garoto, o espelho em seu quarto: em menos tempo do que pensa, ele há de perguntar o que lhe trouxe até ali, o que houve que agora já está assim, à espera do quê?


E aí, garoto, já é tarde: a notícia sobre você será espalhada em dois clicks do mesmo mouse que deixou para trás: um para abrir a mensagem e talvez lamentar; outro para fechá-la, e então esquecer.

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