29 de jun de 2007

:: Quid Est Veritas ::

Demorei demais a perceber algumas coisas a respeito de algumas pessoas. E o que percebi foi que há aquelas que só são felizes quando não o são: e que, por isso, fogem dos sorrisos, fogem do sol, fogem das batidas mais rápidas das músicas, porque não sabem o que fazer consigo mesmas quando não estão entregues a uma lamúria infinita, surda e, por vezes, quase todas, injustificável.

Sim, injustificável: daí a procura insana por um motivo, por um alguém, ou por um motivo em um alguém, que lhes permita, por mais alguns dias, bradar contra a crueldade da vida e do quanto nada para si parece dar certo nunca. Vêem, então, situações onde estas não acontecem, indiretas em tudo o que não poderia ser mais direto, pedem (e não aceitam) explicações pelo que simplesmente não há para ser explicado. E, explicador, não demonstre cansaço: é ele a sua sentença final, o nó da forca e o puxão na alavanca do patíbulo.

Demorei demais a perceber que se há o bom entendedor, para quem meia palavra basta, é porque há seu oposto: aqueles para os quais palavra alguma é suficiente, intenção alguma é sincera, e para quem todo o vernáculo submerge num eterno éter de improbabilidade.

Demorei demais a perceber que há um tipo de egoísmo que parte do outro: que não lhe permite um dia ruim, uma dor de cabeça, uma chamada às pressas ou uma disfunção na internet. Um tipo de egoísmo que lhe diz que está tudo bem, quando nada você fez para que não estivesse, mas que deixa escapar em seu eco a imagem de uma cabeça que insiste em menear; que lhe priva do outro que, talvez enfim você perceba, nunca foi seu. Egoísmo que posa de altruísta, ao dizer que você não precisa explicar nada e que o erro é dele. E aí, em alguma madrugada, em algum bar, de algum lugar em alguma sexta-feira próxima, algum amigo vai ouvir pela enésima vez a mesma história diferente de sempre, sobre uma vida triste, triste, oferecer um trago desnecessário, um ombro desnecessário e uma carona já necessária pra casa.

Saiba, no entanto, disto: o sol vai nascer na manhã seguinte, por mais que seus olhos inchados se neguem a enxergá-lo. Saiba, no entanto, disto: há verdades que serão sempre verdades, acredite você nelas ou não.
“To mais pra ir à luta que pra ficar discutindo com você”, disse Asdrúbal há trinta anos, na pausa para recuperar o fôlego e soprar seu trombone.

Eis, então, o meu egoísmo: não buscar a infelicidade de ninguém; ainda que lhe queira, e que a sua felicidade só apareça através dela.

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22 de jun de 2007

:: Day Off ::

Tudo bem. Vou então responder, para não precisar ouvir as mesmas perguntas vezes sem fim.

Dá muito trabalho catalogar as mágoas, por isso me desfaço de todas antes mesmo que essa atitude faça sentido. Se acha que eu deveria, por algum tempo, representar o papel de ofendido, permita-me usar o meu para alguma outra coisa mais interessante.

Se você insiste em discutir, prefiro deixar para expor minha opinião no dia seguinte. Antes disso as palavras não terão razão; depois, não terão sentido.

As opções que venho fazendo dizem respeito a mim e só. Se a sua visão de sucesso cabe dentro de um carro novo, prefiro deixar a minha do tamanho do horizonte. Se você não compreende, peço apenas que não julgue.

Entenda: o que separa a normalidade da loucura é apenas a quantidade de adeptos que cada uma tem. E a história, amigo, foi sempre escrita pelos loucos.

Agora é o seu momento: diga que estou fora da realidade, que me falta maturidade e tudo o mais que sua faculdade lhe disse ser essencial. Fale das estatísticas, fale da expectativa de vida, fale da competitividade do mercado. Fique à vontade, e permita-me não me importar: a adversidade é a matéria-prima da criação. Se o seu melhor argumento é o contra-cheque ao final do mês, saiba que agora sou pago todos os dias.

E quando eu passar em frente ao seu escritório, apareça na janela.

De lá da rua, vou lhe acenar.

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15 de jun de 2007

:: Filtro ::

Ela vivia repetindo: “fato é”.

Quando faltava força às suas idéias, empregava o “fato é”. Quando faltava força à sua voz, sacava citações – emendando-as com meia-dúzia de palavras faladas à Ernani Pires e encerrando com uma saída dramática pela porta mais próxima, mesmo que não tivesse necessidade alguma de cruzá-la. As mesmas tais palavras, se ditas com tranquilidade, permitiriam a nós outros perceber não encontravam contexto algum na discussão.

Fato é que era essa a pessoa que nos mandava fazer isso ou aquilo. E mandava porque podia, não porque sabia. E mandava porque a empresa precisava, porque seria um "improvement em nosso income", porque assim falou Al Ries, porque sim. E, ao final da semana, exigia de cada um seu relatório de produtividade: a prova do merecimento pessoal de fazer parte daquela grande família feliz.

(“De família basta a minha” – grita João Carlos, de lá dos anos 70, de lá do corredor do apartamento de Tereza, vencendo a gritaria da festa de um ano da irmãzinha dela.)

O prêmio do funcionário da semana vinha na segunda-feira seguinte, na forma de um e-mail de reconhecimento, assinado não com qualquer assinatura automática, mas com a do presidente da empresa. Ostentava o subject “exemplo a seguir” e um texto ctrl+c/ctrl+v dizendo o quanto tal pessoa ao empregar tal procedimento fizera tanto bem a esta instituição. A mensagem chegava, então, à minha caixa de correio disputando espaço às cotoveladas com o Viagra, o Levitra, o Liverjoice e os convites para comunidades do calibre de “eu adoro o Levizinho”, seja ele quem for. E era assustadora a quantidade de pessoas cuja vida parecia depender desse reconhecimento: os clicks em "enviar e receber" ecoavam por todos os corredores nos inícios de semana, numa cadência de dar inveja ao Stomp. De minha parte, configurar o Eudora foi sempre o primeiro conselho a dar aos rookies.

Lá pelas tantas, discuti com Fato É. E também lá pelas tantas, ao ver cair por terra seu exíguo portfólio de argumentos e suas expressões em inglês Speak-Upiano, veio justificar a alcunha:

“Fato é que sou eu quem mais recebeu 'Exemplos a Seguir' neste departamento.”

Respondi que Eudora tinha meu voto para receber um pelo ano todo.

Ela perguntou quem era Eudora. Tive preguiça de explicar.
E então voltou para sua sala, dramática, procurando uma porta por onde sair.

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5 de jun de 2007

:: Scrap ::

Passei aqui só pra dar um oi.

Passei só para dizer que se você continuar a ver tudo assim, vai acabar se encontrando lá na frente com um monte de experiências reclamando que precisavam ter sido vividas e você não deixou. Que se não parar de olhar para os outros, nunca vai enxergar tudo o que pode e merece ser.

Passei aqui só para dizer que você precisa sair da platéia, e perceber que a vida é aquilo que a gente faz dela. Passei aqui só pra dizer que o tempo passa mais vezes do que eu, e que o arrependimento pode durar todos os seus dias.

Passei só para dizer que não basta conhecer sentimentos: eles precisam ser cuidados ou, ao menos, respeitados.

Passei para dizer que o imaterial dura mais que o carro do ano, mais do que aquilo que guardam as caixas azuis da Tiffany&Co, e para dizer que nada pôde acrescentar uma única hora às que restavam a Howard Marshall.

Passei só pra dizer que nós somos mais do que comer, dormir e manter-nos vivos: somos realizar, somos saber; somos construir, de dentro pra fora.

Passei aqui só para dizer que a vida lhe espera; mas não espera pra sempre.

Bjs.


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