15 de jun de 2007

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Ela vivia repetindo: “fato é”.

Quando faltava força às suas idéias, empregava o “fato é”. Quando faltava força à sua voz, sacava citações – emendando-as com meia-dúzia de palavras faladas à Ernani Pires e encerrando com uma saída dramática pela porta mais próxima, mesmo que não tivesse necessidade alguma de cruzá-la. As mesmas tais palavras, se ditas com tranquilidade, permitiriam a nós outros perceber não encontravam contexto algum na discussão.

Fato é que era essa a pessoa que nos mandava fazer isso ou aquilo. E mandava porque podia, não porque sabia. E mandava porque a empresa precisava, porque seria um "improvement em nosso income", porque assim falou Al Ries, porque sim. E, ao final da semana, exigia de cada um seu relatório de produtividade: a prova do merecimento pessoal de fazer parte daquela grande família feliz.

(“De família basta a minha” – grita João Carlos, de lá dos anos 70, de lá do corredor do apartamento de Tereza, vencendo a gritaria da festa de um ano da irmãzinha dela.)

O prêmio do funcionário da semana vinha na segunda-feira seguinte, na forma de um e-mail de reconhecimento, assinado não com qualquer assinatura automática, mas com a do presidente da empresa. Ostentava o subject “exemplo a seguir” e um texto ctrl+c/ctrl+v dizendo o quanto tal pessoa ao empregar tal procedimento fizera tanto bem a esta instituição. A mensagem chegava, então, à minha caixa de correio disputando espaço às cotoveladas com o Viagra, o Levitra, o Liverjoice e os convites para comunidades do calibre de “eu adoro o Levizinho”, seja ele quem for. E era assustadora a quantidade de pessoas cuja vida parecia depender desse reconhecimento: os clicks em "enviar e receber" ecoavam por todos os corredores nos inícios de semana, numa cadência de dar inveja ao Stomp. De minha parte, configurar o Eudora foi sempre o primeiro conselho a dar aos rookies.

Lá pelas tantas, discuti com Fato É. E também lá pelas tantas, ao ver cair por terra seu exíguo portfólio de argumentos e suas expressões em inglês Speak-Upiano, veio justificar a alcunha:

“Fato é que sou eu quem mais recebeu 'Exemplos a Seguir' neste departamento.”

Respondi que Eudora tinha meu voto para receber um pelo ano todo.

Ela perguntou quem era Eudora. Tive preguiça de explicar.
E então voltou para sua sala, dramática, procurando uma porta por onde sair.

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