30 de jul de 2007

:: Resposta ::

Às vezes preciso de muitas palavras para dizer muito pouco. Às vezes são poucas as palavras, quando não o silêncio, que uso pra dizer tanto.

Não importa.

O que tenho a dizer já foi dito, antes e melhor, por tantos que viveram e vivem sentimentos como os meus – que, de novos, não têm nada: acompanham o mundo desde que este o é, e não se encaixam nele desde que começaram a ser sentidos.

E o que digo é o que já foi falado, repetido e desgastado: que nenhuma palavra vence a força da falta de atitude, do conformismo de achar que deve-se viver uma situação qualquer porque é melhor, porque é conveniente, porque é o que a sociedade espera, porque sim.

Então eis-me aqui, retomando a vida de onde parou, para que mais adiante possa aparecer algum sol, algum céu, alguma chuva que me caia sobre o rosto. E, porque não, mesmo algumas nuvens escuras: se as noto, não esqueço que por trás delas há um céu.

E, rumo a esse céu, preparo novamente meu vôo.

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23 de jul de 2007

:: Carona ::

Ele passou pela porta do restaurante umas três vezes, quando era, talvez, meio-dia e meia: almoço no Eco, mais olhos do que nos finais de semana desertos entre a gelateria da Parmalat e o Iguatemi.

Não há como negar: o Audi TT prateado chamava a atenção, de capota arriada. Parado, mas com o motor roncando alto, o homem disfarçava o olhar por dentro dos óculos escuros tentando perceber quem é que, de lá do restaurante, olhava para seu Audi TT prateado e de capota arriada.

A primeira vez, alguns. Em minha mesa, ouvi alguém comentar que aquilo sim é que era um carro. Outra pessoa afirmou categoricamente que tinha a mesma plataforma do Golf. A menina do atendimento ainda estava ao celular, e desligou perguntando para nós sobre o que é que estávamos falando.
- Do TT que estava ali fora.

Voltamos para o cardápio, cada um pediu o seu, e eu o mesmo de sempre.

Os pratos chegaram junto com o TT, em sua segunda ronda. Comportamento idêntico ao da primeira: pisa no acelerador, disfarça o olhar.

A menina do atendimento:
- Esse?

- É.

Voltamos ao assunto em que estávamos, que era nenhum. E quando veio o expresso e a água com gás (com gelo e limão), veio o Audi em sua terceira tentativa.

Dessa vez, nenhum olhar. E ele foi, triste, para não voltar mais.

Pedimos a conta, fomos embora. Quando saíamos do restaurante, vimos um Hummer estacionado. Enquanto entrávamos no taxi, alguém disse:

- Isso sim é um carro.

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13 de jul de 2007

:: Norte ::


- Rapaz, você precisa encontrar seu lugar no mundo!

Mas a vida está em movimento...

- Rapaz, ligue para o escritorio, você consegue o emprego!

Mas a vida está em movimento!

- Assinam sua carteira, pagam seu INPS!

Mas a vida está em movimento.

- Plano de carreira, participação!

Mas a vida está em movimento.

- Estabilidade, o resto dos seus dias fazendo a mesma coisa!

Minha vida está em movimento.



- Rapaz, você precisa encontrar seu lugar no mundo!

Encontrei: é estar sempre procurando.


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6 de jul de 2007

:: Continuum ::

Hoje estou aqui, cinco anos atrás.

Hoje tenho saudade de quando vou lhe conhecer, e de tudo o que viveremos, do futuro que nos esperava e de tudo isso que passou. Hoje eu a vejo esperando, quando deixei-a na bilheteria, e a vejo saindo do carro onde acabamos de chegar. Hoje eu lembro de quando enxuguei a lágrima alegre que você vai chorar daqui a quase dois anos, porque encontrou a flor que vou deixar sobre sua cama. Hoje eu a vejo pegando o telefone para atender a ligação que vou fazer. Hoje eu lembro como daqui a dois meses você vai entender mal alguma coisa que foi dita, e esqueço de como vou explicar, e vejo seu sorriso aparecer e as nuvens sumirem do seu rosto.

Hoje estou aqui, três anos atrás.

E vamos embarcar em nossa primeira viagem, e descobrimos na volta que foi a melhor das nossas vidas, e eu lembro que todas as próximas foram, elas, as melhores, e as melhores, e as melhores. E as que virão, que vieram, que foram e que serão: as melhores, as melhores, as melhores. E eu nos vejo planejando alguns destinos, chegando a outros, cumprindo tantos há tanto tempo ainda por vir.
E está ali, enfim, nossa casa pronta, no terreno onde a vamos construir, terminada há pouco mais de dois meses: e lembramos dos amigos que receberemos amanhã, em nossa festa de inauguração, ao ver as fotos que fizemos deles, colocadas há dias na parede da sala.

Hoje estou aqui, um ano atrás.

E a vejo chegando cansada, dormindo leve depois do banho que vai tomar. E me vejo vendo todo o tempo ao mesmo tempo: tempo que só existe porque é você, e que se priva do sentido que afinal não tem, quando em questão estamos nós.

Hoje estou aqui, relembrando todo o futuro que teremos.

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