27 de ago de 2007

:: Genes ::

Todo o corpo é memória.

Tudo o que vivi, gravado nos músculos, nos ossos, no sangue.
As dores de amor, não trago no coração: trago nos pulmões vazios, no diafragma que se fecha, no suor que me brota das mãos.


Das idéias para o futuro, lembram-se meus dedos, e meus olhos e lábios e dentes: um sorriso esgarçado, entre as orelhas. Dessas idéias, hoje, não há desesperança; apenas, também, duas ou três rugas em uma testa franzida.


De uma paixão, lembram-se as pernas bambas, os pés inquietos, o lábio mordido na vigília junto ao telefone. E lembram-se a pele, e os pêlos, do toque.


Da perda, lembra-se a nuca, lembram-se os ombros, pesados.
Da expectativa, a lingua e garganta secas.


Todo o corpo é memória; e ainda que velho, cansado, a guardo onde não se esvai: impressa, na alma.


...

Nenhum comentário: