19 de ago de 2007

:: Nódoa ::

Vai-te então, coração imprudente;
tu que és feito da poeira das mesas e do lodo das sarjetas,
conservado no álcool de noites sem fim.

Animal peçonhento, pernicioso,
sai de tua toca para ver o sol que escancara em céu aberto;
“É dia” – Grita ele – “apesar de ti, de tuas batidas amargas.”
Encara o horizonte, de frente;
despeça-te das estradas sem fim, das coxias de corcéis brancos,
e das aventuras de capas de veludo e de torres altas
e de felizes para sempre.


A verdade é esta, que se lhe impõe: as horas implacáveis,
amontoando-se umas sobre as outras, sufocando-lhe a vida,
roubando-lhe o ar.

Vai, coração plúmbeo, veja esta que é a tua verdade:
que nada muda, entenda, nada muda: quem é humano sempre o será;

Desagarre dos seus sonhos, pequeno coração,
destila agora teu nobilíssimo veneno:

aquele que tu mesmo sorves a goles pequenos,
aquele que tu mesmo armazenas
e envelhece,
como se vinho de altas castas fosse: a angústia, a insegurança,

o ciúme daquilo que não tens, daquilo que não vês,
daquilo que pensas;

E com tais pensamentos constrói tua realidade: a firmeza que tem
um castelo de cartas.

Vai-te agora, coração, deixe-me em paz: em resoluto silêncio,
guardo aqui meu luto; ou fá-lo comigo, reverente,
por aquilo que não veio a nascer.

...

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