13 de ago de 2007

:: REM ::

Assim que entrou na loja, ficou um pouco atordoada: primeiro era o cheiro, bom, mas forte, de madeira, fumaça, e grama molhada, e cheiro de coisa antiga, muito antiga, mas sem nome. Depois, eram as prateleiras, imensas: não conseguia ver o topo de nenhuma delas. E era também por causa disso que não conseguia ver o fim da escada. Foi com esse olhar de surpresa que primeiro encarou aquela que, supostamente, era a vendedora: uma senhora baixinha, de avental e dentes amarelados e felizes. Tão enrugadinha era ela que parecia ter a idade do mundo, mas não tinha: tinha a idade do primeiro homem que existiu, menos um dia.

E foi sua voz, suave como música de ninar, que rompeu o torpor da visitante:

- A mocinha se pergunta como uma velha como eu sobe essas escadas, pois não?

A mocinha nada respondeu.

- Pois eu não subo. Peça o que quiser, eu garanto que está numa dessas aqui. – e apontou para as prateleiras atrás de si.

E atrás dela havia potes de vidro: alguns muito bonitos, outros enfiados no meio de teias de aranha. Alguns pareciam ter fumaça, e outros água, e outros luz, e tudo o mais que se puder imaginar.

- O sonho que você sonha não é comum de se sonhar, menina. E no final, quando acordar, vai achar que foi só um sonho, que afinal é o que é, pois não?

A garota estava maravilhada e confusa e atônita e aflita por querer ver tudo, saber tudo, experimentar tudo, entender tudo de que lugar era aquele, fosse qual fosse.

E como nada dizia, disse então a velhinha.

- Eis aqui o você sonharia esta noite se não tivesse vindo parar aqui. – pegou um pote de boca larga, e dentro dele parecia haver fumaça azul – não é um sonho novo, muito pelo contrario, mas sempre agrada: voar. Agora você deveria estar voando neste céu aqui, menina.

E a garota ficava cada vez mais encantada. Seus olhos brilhavam enquanto caminhava mais à vontade pela loja.

- Então tudo isto são sonhos que vou sonhar? - perguntou, enfim.

- Ah, muito mais que isso, menina bonita. Aqui estão os sonhos de todo mundo. Sonhos de todo tipo. Até aqueles sonhos que depois viram verdade. Tem os sonhos que você acorda e acha que nem sonhou. Tem os sonhos que você sabe que são sonhos, e gosta deles por causa disso. E tem os sonhos ruins – apontou para uma série de potes retorcidos, esquisitos – que de vez em quando há para quem mandar.

Os dedos da menina encostavam nos potes enquanto ela andava, de boca aberta. Prateleiras altas, tão altas!

- Há os sonhos que são pra todos, há os que são pra cada um, há os que se divide. Há os sonhos para sonhar acordado, há os sonhos que tem nome de gente porque são gente mesmo. E há você aqui, que depois vai achar que foi só um sonho, o que de fato foi mesmo, mas eu já disse isso, pois não?

A menina segurou um pote lindo, luminoso, dourado, em suas mãos. Era grande, mas leve, e liso e quente e aveludado. Ela suspirou e, no meio do suspiro, sentiu em pânico que deixava o pote escorregar de suas mãos.

Antes que a senhora pudesse falar, era tarde. Restou-lhe acompanhar a queda.

Em um segundo, o pote espatifou-se completamente no assoalho.

Aflita, a menina gritou:

- E agora, senhora? O que faço? Que sonho foi esse que perdi?

A velha deu um suspiro longo e pesado. Olhando para os cacos, murmurou:

- Não, menina, não perdeu nenhum. – ergueu os olhos – O sonho que você teve nas mãos e despedaçou era, na verdade, o de outro alguém.

...





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