1 de out de 2007

:: Prólogo ::

Ela chegou despretensiosa, mal se apresentou.
Deixou sua foto, um bilhete, um telefone, nenhuma pretensão. Ele pegou o bilhete, guardou a foto, memorizou o telefone; pensou se ligaria. Sabia que ligaria, por mais que achasse que talvez fosse melhor não (ah, o medo de tudo o que já vivera!), e conhecendo-se, adiantou-se a si mesmo: sacou o telefone, ligou.

Ela atendeu, fingiu supresa (afinal, legítima) e, lisonjeada como deveria ficar, mandou-lhe um beijo perguntando-se se ele ligaria novamente (ah, o medo de tudo o que já vivera!). Ele desligou, perguntou-se se deveria ter ligado, se deveria ligar de novo e, conhecendo-se, adiantou-se a si mesmo: passados dois dias, ligou.

Combinaram de se encontrar, e encontraram, e ficaram nervosos, e não sabiam o que dizer, ou o que olhar, ou até onde ir, e ele (sem jeito) deixou-a em casa, deu-lhe dois beijos e foi embora: já na esquina, considerava-se um idiota completo por não ter arriscado um beijo na boca.

Ela encostou-se na porta fechada, suspirou, sonhou com o beijo não dado, feliz por ver naquilo apenas o início.

E de fato era: no dia seguinte ele ligou, mais à vontade, e ela atendeu, mais à vontade, e ambos se encontraram mais à vontade na praça em frente ao cinema, como dois enamorados dos anos cinquenta; e enamorados, sempre lindos e idiotas em qualquer década, vieram com seus suspiros, apelidos, e satisfações que acham que têm que dar um ao outro.

Assistiram ao filme, disseram que gostaram e desgostaram das mesmas coisas, e se acharam tão parecidos, e foram caminhando ao invés de pegar um taxi, e nossa como ficou tarde e amanhã eu te ligo e não, me liga quando chegar em casa e tudo bem eu te ligo então. E ligaram, e falaram, e discutiram pra ver quem é que desligaria primeiro. E fingiram desligar, e riram, e fingiram de novo, e riram, e enfim falaram que dessa vez era sério, e não foi, e riram e, em algum momento, desligaram.

E suspiraram, e dormiram, e sonharam.


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