29 de out de 2007

:: Appoggiatura ::

Surpreende (muito) que você aja como age com tanta naturalidade, como se houvesse recebido um salvo-conduto vitalício, irrevogável, enquanto julga que nós - todos os outros - precisamos correr para descobrir que pratos rodar a fim de que sua realidade ilusória não caia, despedaçando-se em incontáveis por quês.

Proteger-se atrás de uma experiência mal-sucedida, da covardia de tentar algo novo, é a maneira mais sublime de enganar a si mesmo, tentando convencer-se de que é um arroubo de altruísmo servir a outro o seu já pré-cozido “faço o que faço porque não quero lhe magoar”. Entenda que a passividade diante da própria vida, quando há outra vida em questão, é egoísmo: há estações do ano, e chuvas, e sóis, e pessoas que continuarão a existir ainda que você tente se convencer do contrário, com a cabeça enfiada no buraco.


Às vezes penso que o que lhe falta é um pouco da minha grosseria, um pouco do meu descaso, um pouco da minha arrogância e do meu desdém: do que você diz odiar, mas que procura invariavelmente em todos por quem demonstra interesse. Entretanto, lembre-se que mostrar o que não sou é um prato que nunca sustentei, e que, assim, nunca foi feito em cacos porque está inerte, incólume sobre o chão, esperando para carregar sobre si aquela que quiser tornar-nos o que, afinal, estamos destinados a ser desde sempre.

Se havia alguma verdade em seu lamento sobre a perda, esta é a hora de mostrá-la: na dobra do tempo, que volta a lhe estender a mão.



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22 de out de 2007

:: Outono ::

Vou explicar de novo, talvez não me tenha feito entender.

Quero você pra mim, mas isso não lhe dá o direito de agir como quiser. Lembre-se: sentimentos pedem correspondência, e se não nutridos, na melhor das hipóteses, morrem. Não se engane: quando ligo e você não atende, quando falo e você não ouve, quando olho e seu olhar desvia, algo acontece: não há pedido de desculpas, ainda mais quando repetido à exaustão, capaz de curar todas as feridas; se quer curar todas, aja como quem quer curar todas.

Talvez eu veja agora o que já deveria ver desde o início: que nenhum amor deve ser maior que aquele por si mesmo, e que nisto nada há de narcisismo; apenas a constatação de que, em todas as instâncias, é apenas conosco que podemos ter a certeza de sempre estar, a todo dia, em todas as horas, e que da nossa companhia é impossível fugir; assim, da mesma forma, é impossível fugir das cobranças que nos fazemos. Talvez agora eu veja que o egoísmo não é somente introspecctivo, mas também se mostra quando o outro parece-nos mais importante do que aquilo que nos compõe. Talvez eu tenha visto que as noites de choro, o entorpecimento do vinho e os ouvidos amigos não são opção de destino para aquilo que pretendia lhe oferecer.

Talvez eu tenha visto que a quero pra mim, mas não a qualquer preço.

Coloco-me onde devia estar: como quem a vê, como quem a quer, mas como alguém que responde àquilo que recebe.

Minha espera, agora, é em movimento.


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15 de out de 2007

:: Metrônomo ::

passa a vida, passa o tempo certo
troca a tina, vai um outro inverno
muda o tom, renova a tua forma
do princípio incerto até o fim
desfez comigo a sua trajetória
e não refez o que veio de novo
com tanta dor eu canto à minha glória
enquanto vejo com o canto do olho
fumaça densa me despe a memória
e álcool puro lhe manda pra longe
mas de manhã respiro entre os nervos
solto o suspiro que não pode ouvir
a solidão pra mim tem o seu nome
e a desesperança o mesmo endereço
o som do telefone não diz nada
nem a voz me traz qualquer apreço
sozinho, vêm lembranças de um sonho
e toda a realidade que não vivo
dobro a esquina de um outro ano
e o neon reflete na sarjeta
mesmo assim espero algum sentido
e tiro meu sorriso da gaveta

o futuro já não soa tão distante
se guardo a carta que tenho comigo
quando a memória me derruba a fronte
dou seu nome às marcas em meu cenho

você ocupa todo o horizonte


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1 de out de 2007

:: Prólogo ::

Ela chegou despretensiosa, mal se apresentou.
Deixou sua foto, um bilhete, um telefone, nenhuma pretensão. Ele pegou o bilhete, guardou a foto, memorizou o telefone; pensou se ligaria. Sabia que ligaria, por mais que achasse que talvez fosse melhor não (ah, o medo de tudo o que já vivera!), e conhecendo-se, adiantou-se a si mesmo: sacou o telefone, ligou.

Ela atendeu, fingiu supresa (afinal, legítima) e, lisonjeada como deveria ficar, mandou-lhe um beijo perguntando-se se ele ligaria novamente (ah, o medo de tudo o que já vivera!). Ele desligou, perguntou-se se deveria ter ligado, se deveria ligar de novo e, conhecendo-se, adiantou-se a si mesmo: passados dois dias, ligou.

Combinaram de se encontrar, e encontraram, e ficaram nervosos, e não sabiam o que dizer, ou o que olhar, ou até onde ir, e ele (sem jeito) deixou-a em casa, deu-lhe dois beijos e foi embora: já na esquina, considerava-se um idiota completo por não ter arriscado um beijo na boca.

Ela encostou-se na porta fechada, suspirou, sonhou com o beijo não dado, feliz por ver naquilo apenas o início.

E de fato era: no dia seguinte ele ligou, mais à vontade, e ela atendeu, mais à vontade, e ambos se encontraram mais à vontade na praça em frente ao cinema, como dois enamorados dos anos cinquenta; e enamorados, sempre lindos e idiotas em qualquer década, vieram com seus suspiros, apelidos, e satisfações que acham que têm que dar um ao outro.

Assistiram ao filme, disseram que gostaram e desgostaram das mesmas coisas, e se acharam tão parecidos, e foram caminhando ao invés de pegar um taxi, e nossa como ficou tarde e amanhã eu te ligo e não, me liga quando chegar em casa e tudo bem eu te ligo então. E ligaram, e falaram, e discutiram pra ver quem é que desligaria primeiro. E fingiram desligar, e riram, e fingiram de novo, e riram, e enfim falaram que dessa vez era sério, e não foi, e riram e, em algum momento, desligaram.

E suspiraram, e dormiram, e sonharam.


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