29 de nov de 2007

:: Grimório ::

Achei que tinha visto o sol
Mas, então, vieram as sombras

Eu agora sou pesado como a noite
Pesado como a palavra que você não ousa dizer
Eu agora enxergo mais do que pretendo
E vou além de onde você me quis levar

Eu agora sou amargo como fel
Pobre como o toque desta pele
Agora, vou além da própria dor
e destilo, só, esta miríade de porquês

Eu achei que tinha visto o sol
Mas vieram os pensamentos
Neles, veio você
e, então, veio a chuva.


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25 de nov de 2007

:: Quo plerumque et ::

No final, talvez o melhor seja vestir um terno cinza (seja qual for a roupa que vestir), apertar o nó da gravata e aprender uma piada ou duas para quebrar o gelo em uma reunião de apresentação para o cliente. Talvez seja montar um Powerpoint engraçadinho para enviar por e-mail, pegar outra chícara de café com duas gotas de adoçante e chegar mais tarde em casa depois do happy-hour. Talvez seja melhor participar da reunião administrativa, para decidir se as novas catracas devem girar para a esquerda ou para a direita, e ir à próxima reunião de condomínio decidir se a cor do playground deve ser branca ou gelo.

Talvez seja melhor falar alto sobre a incompetência do lateral esquerdo, que fatura milhões mas não joga nada. Talvez seja melhor comprar bilhetes de metrô para a semana toda e esperar atrás da linha amarela (ao som de alguma música erudita) até que chegue o trem? Quem sabe se não é mesmo melhor, ali dentro, olhar para o chão até que a gravação anuncie a chegada da estação?

Quem sabe o melhor é dormir à noite, cansado demais para pensar em outra coisa que não a cama? Ou talvez, antes disso, uma refeição no microondas, um beijo na mulher, e às vezes algum sexo burocrático?

Quem sabe, afinal, se não é melhor adiantar o horário do despertador, antes que sonhemos demais?


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18 de nov de 2007

:: Anáfora ::

Então tá.

Que atire a primeira pedra quem nunca cansou de bancar o indiferente, pegou o telefone e ligou. Que grite “infantil!” aquele que nunca ficou ao lado desse mesmo telefone, esperando uma ligação que tantas vezes não veio. Que aponte o dedo quem nunca puniu a si mesmo, imaginando que poderia ter feito alguma coisa diferente, que poderia ter falado mais ou falado menos, que poderia ter agido mais ou agido menos, que poderia ter proposto, ou mudado, ou deixado, ou qualquer outra coisa, (não importa o que tenha de fato feito), crendo ingenuamente que, assim, talvez o desenho dos dias apresentasse linhas diferentes.

Eis, no entanto, as linhas que tenho: muitas vírgulas e reticências, poucos pontos finais.

Que se pronuncie aquele que alega saber como agir certo; quem pode, afinal, conhecer a profundeza dos desejos de outro, tão indecifráveis mesmo para quem os têm? Quem pode entender o que diz o ar de um suspiro, ou saber como é que você me vê quando ouve seu nome em minha voz?

Eu sou apenas isso, o que sou: feito de desejos, sobrevivente de sonhos, vivendo o meu capítulo da velha história dos relacionamentos. E foi agora que encontrei você: um nome a resumir tudo o que quero.

Comece, então, esse parágrafo.


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11 de nov de 2007

:: Ab imo corde ::

Será que você entende quando acontece? Será que sente?

Quando há que acordar porque acabou o sono, ou quando há que dormir porque este chegou?
Quando há que comer porque veio a fome, para assim nos vermos saciados até a próxima refeição?

Então, coma.

Quando a noite após o dia é apenas inevitável, quando a lua surge porque é esse seu papel, quando as estrelas mal servem para romper a escuridão?

Então, abra os olhos.

Será que percebe quando os caminhos sob seus pés não são aqueles que seu coração desenhou? Quando pouco importa se há chuva ou calor, porque sua pele sente apenas o ar-condicionado?

Então, bata o ponto.

Quando perdida em você mesma, nenhuma voz se faz ouvir? Quando há que abrir a própria mão para poder segurar a que lhe oferecem?

Então, pegue a minha.

Será que percebe que você ainda existe, apesar dos horários e funções e impostos e papéis e escaninhos? Apesar do abismo criado em seu cenho?

Ouça minha voz, deixe-se guiar.

Assim, você vai perceber que todos riem quando há alguém olhando. E que não é o status, não é o saldo, não é o endereço: dentro do âmbar social, preserva-se sua essência.

Eis o ar que lhe quero dar.


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5 de nov de 2007

:: Compasso ::

Apenas um minuto bastaria.
Se você pudesse ver o que vejo,
sentir o que sinto,
pensar como penso, entenderia.

Saberia que há os momentos pelos quais espero tanto, há tanto, que quando os tenho temo sua fuga: a vontade de que sejam perfeitos faz palavras e ações escaparem, atrapalhados, ao controle; perceberia que o que busco para lhe dizer desaparece quando seus olhos miram os meus: que restam suspiros e sorrisos, que então lhe ofereço, e que dizem mais do que saberia expressar.

Compreenderia que me perco em você quando a tenho nas mãos, e que sempre penso que poderia ter feito mais e melhor: e que, assim, você seria minha e de mais ninguém.

Se por um minuto você estivesse em meu lugar, perceberia que a dificuldade em dizer o que sinto vem de não existirem palavras para descrever à altura: mas que nada poderia ser mais verdadeiro, mais autêntico, mais seu. Saberia que a confiança que tenho em poder lhe fazer feliz vem da certeza de que não resta espaço para outra possibilidade: você ocupa toda a extensão do meu sorriso. Que a quero não por uma tarde, não por uma noite, mas para todas daqui por diante: e que, a cada uma, me tornarei mais eu, na medida em que posso ter mais de você.

Você entenderia que as regras não se aplicam, que os sentidos mudam de direção; que, ao afastar-se, você me distancia de mim mesmo. Veria que um novo caminho já está à sua frente, e que basta dar o primeiro passo.

Você saberia que é possível.

Apenas um minuto. E, a partir dele, toda uma vida.



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