31 de dez de 2007

:: Bonança ::

Ela sorriu o mesmo sorriso que sorriem milhares de pessoas: o sorriso vazio de quem não tem nada a dizer, de quem procura por entre pensamentos perdidos alguma palavra que quebre o silêncio, que quebre o mal-estar que sua simples presença provoca, e que lhe dê alguns instantes mais de vantagem até que a próxima palavra lhe seja cobrada, exigida, por um momento a mais de silêncio.

Ela desvia o olhar como quem não quer encarar a si mesma, como quem percebe que a imagem é, agora, insuportável diante do que ela própria criou, concebeu: as expectativas que não cumpriu, as promessas que deixou perdidas por um caminho qualquer, as juras que nunca tencionou atender: mas há os olhos de para quem as fez, ali, à sua frente, e esses olhos, mais do que desculpas, a querem despida, não das roupas, mas das máscaras que ela nem mesmo admite vestir. São olhos que a querem ver como é, como ela nem sabe que é, como a buscaram desde o início, desde aquele primeiro momento perdido naquela escadaria infinita, onde cruzaram com os seus, onde morreram por um segundo antes de renascer: esses olhos ainda trazem a chuva e a noite daquele dia, trazem o calor e as cigarras, trazem a música quase tribal e as estrelas que, teimosas, aparecem em uma noite que não é de estrelas: é de chuva, e é a chuva, na pele e no semblante, na razão e em uma confusão que não encontra freio, não encontra receio em quem lhe quer exibir.

Ela agora solta o suspiro de quem desiste, de quem não assume para si quem é, de quem pretende virar as costas e fechar a porta tão logo seja possível, tão logo ele lhe permita, mas que antes do frio êxito, deixa escapar dos lábios um leve gemido.

Agora, assim, seus olhos vêem as costas dele, que se afasta; seus ouvidos temem o ruído da chave, o ranger da porta, e então o barulho quando a fecha, pesada.

Ela agora está só, e nada há em seu rosto.

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24 de dez de 2007

:: Hall ::

E foi esta a dor que ela levou ao fechar a porta.

Enquanto esteve ali, procurou nas gavetas, releu alguns papéis, remexeu o armário. Debruçou sobre uma fotografia, riu quando lembrou do dia em que viram neve: parecia brotar do chão, mais do que derreter sobre suas cabeças. Abriu a geladeira para um gole de água, encostada em um suspiro.

Olhou algumas das roupas dobradas sobre a cadeira, colocou o jarro de volta em seu lugar. Fechou as janelas, deixando apenas uma fresta para o ar circular. Já era noite. A luz que vinha de fora era incerta, vermelha e falha: o neon do bar em frente, barulhento, anunciando hambúrgueres madrugada adentro. O vidro amortece os sons: mal se ouve o gato em seus protestos, ou as buzinas cada vez mais distantes. Ainda assim ela se permite pensar em quem dirige esses carros, nestas horas mais silenciosas do dia, divagando para onde iriam, com quem e porquê.

Ela estava de frente para a porta, pronta para sair. O abajour ficava aceso de propósito: companhia para quando voltasse. E era já tão tarde.

Então abre, com um movimento decidido, e olha para o apartamento antecipando seu retorno. A chave, os passos, a rua: que, em alguma sarjeta, o que sente agora possa ser esquecido; que sua cama a receba livre de si mesma.

Agora, à noite.


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16 de dez de 2007

:: Rito ::

Ela é devota de deuses antigos, cujos nomes já se perderam na poeira do tempo: só ela ainda lembra, e ainda leva flores, e canta cânticos, e eles ouvem como sempre ouviram, e lembram com suas memórias eternas de quando os povos entoavam, e clamavam, e traziam oferendas enquanto pediam fartura e filhos.

Da cidade onde nasceu agora restam pedras e plantas, que confundem-se em estruturas híbridas. Das memórias nascem folhas e frutos que ninguém colhe: desconhecem, seriam incapazes de lhes entender o sabor. As sombras dos troncos escondem caminhos há muito percorridos, esquecendo-se de para onde levam.

Ela já não vai à sua cidade há mais tempo do que consegue lembrar. Mas ainda lembra das flores, dos cânticos e da sua devoção.

O chão em que seus pés pisam outrora foi a montanha sagrada, onde os nomes dos deuses eram chamados, e eles ouviam, e se manifestavam, e davam fartura e filhos. A montanha, agora, é um prédio colossal, em cujas veias circulam memorandos e gravatas e cartões de ponto e declarações de missão e funcionários do mês. Ninguém se dá conta de que ela está ali há muito mais tempo do que o prédio, há muito mais tempo do que a instituição ali abrigada, há muito mais tempo do que existe cimento, concreto ou vidro: ela é invisível, é a moça que leva o café que alimenta os negócios e as úlceras, cujo nome ninguém se importou em perguntar.

Mas ela continua ali: sobrevivendo aos dias, eras, sem saber bem o porquê. E ainda sobe ao cume da montanha, este terraço onde homens engravatados vêm fumar escondidos, e quando se vê sozinha, chama por seus deuses, esquecidos por todos, menos por ela: e eles ouvem, e vêm, e a mantém: sua única devota, de tempos imemoráveis.


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9 de dez de 2007

:: Incerto ::

Ela vinha aqui ontem.

Eu a esperava com o quarto arrumado, com a cama feita, o vinho aberto para respirar.

Eu a esperava como era de se esperar: coração desprotegido, sorriso pronto, mãos ávidas por segurá-la, lábios à espera dos seus suspiros.

Eu a esperava com a música escolhida, com o abajour ligado, com perfumes e palavras. Eu a esperava com velas, com incenso, com o desapego às horas, com minutos descuidados, com segundos ansiosos.

Eu dispensava outra companhia, deixava o mundo para depois.

Ela vinha aqui à noite.

Mas, então, veio a noite, e não a trouxe.


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