31 de dez de 2007

:: Bonança ::

Ela sorriu o mesmo sorriso que sorriem milhares de pessoas: o sorriso vazio de quem não tem nada a dizer, de quem procura por entre pensamentos perdidos alguma palavra que quebre o silêncio, que quebre o mal-estar que sua simples presença provoca, e que lhe dê alguns instantes mais de vantagem até que a próxima palavra lhe seja cobrada, exigida, por um momento a mais de silêncio.

Ela desvia o olhar como quem não quer encarar a si mesma, como quem percebe que a imagem é, agora, insuportável diante do que ela própria criou, concebeu: as expectativas que não cumpriu, as promessas que deixou perdidas por um caminho qualquer, as juras que nunca tencionou atender: mas há os olhos de para quem as fez, ali, à sua frente, e esses olhos, mais do que desculpas, a querem despida, não das roupas, mas das máscaras que ela nem mesmo admite vestir. São olhos que a querem ver como é, como ela nem sabe que é, como a buscaram desde o início, desde aquele primeiro momento perdido naquela escadaria infinita, onde cruzaram com os seus, onde morreram por um segundo antes de renascer: esses olhos ainda trazem a chuva e a noite daquele dia, trazem o calor e as cigarras, trazem a música quase tribal e as estrelas que, teimosas, aparecem em uma noite que não é de estrelas: é de chuva, e é a chuva, na pele e no semblante, na razão e em uma confusão que não encontra freio, não encontra receio em quem lhe quer exibir.

Ela agora solta o suspiro de quem desiste, de quem não assume para si quem é, de quem pretende virar as costas e fechar a porta tão logo seja possível, tão logo ele lhe permita, mas que antes do frio êxito, deixa escapar dos lábios um leve gemido.

Agora, assim, seus olhos vêem as costas dele, que se afasta; seus ouvidos temem o ruído da chave, o ranger da porta, e então o barulho quando a fecha, pesada.

Ela agora está só, e nada há em seu rosto.

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