24 de dez de 2007

:: Hall ::

E foi esta a dor que ela levou ao fechar a porta.

Enquanto esteve ali, procurou nas gavetas, releu alguns papéis, remexeu o armário. Debruçou sobre uma fotografia, riu quando lembrou do dia em que viram neve: parecia brotar do chão, mais do que derreter sobre suas cabeças. Abriu a geladeira para um gole de água, encostada em um suspiro.

Olhou algumas das roupas dobradas sobre a cadeira, colocou o jarro de volta em seu lugar. Fechou as janelas, deixando apenas uma fresta para o ar circular. Já era noite. A luz que vinha de fora era incerta, vermelha e falha: o neon do bar em frente, barulhento, anunciando hambúrgueres madrugada adentro. O vidro amortece os sons: mal se ouve o gato em seus protestos, ou as buzinas cada vez mais distantes. Ainda assim ela se permite pensar em quem dirige esses carros, nestas horas mais silenciosas do dia, divagando para onde iriam, com quem e porquê.

Ela estava de frente para a porta, pronta para sair. O abajour ficava aceso de propósito: companhia para quando voltasse. E era já tão tarde.

Então abre, com um movimento decidido, e olha para o apartamento antecipando seu retorno. A chave, os passos, a rua: que, em alguma sarjeta, o que sente agora possa ser esquecido; que sua cama a receba livre de si mesma.

Agora, à noite.


...

Nenhum comentário: