16 de dez de 2007

:: Rito ::

Ela é devota de deuses antigos, cujos nomes já se perderam na poeira do tempo: só ela ainda lembra, e ainda leva flores, e canta cânticos, e eles ouvem como sempre ouviram, e lembram com suas memórias eternas de quando os povos entoavam, e clamavam, e traziam oferendas enquanto pediam fartura e filhos.

Da cidade onde nasceu agora restam pedras e plantas, que confundem-se em estruturas híbridas. Das memórias nascem folhas e frutos que ninguém colhe: desconhecem, seriam incapazes de lhes entender o sabor. As sombras dos troncos escondem caminhos há muito percorridos, esquecendo-se de para onde levam.

Ela já não vai à sua cidade há mais tempo do que consegue lembrar. Mas ainda lembra das flores, dos cânticos e da sua devoção.

O chão em que seus pés pisam outrora foi a montanha sagrada, onde os nomes dos deuses eram chamados, e eles ouviam, e se manifestavam, e davam fartura e filhos. A montanha, agora, é um prédio colossal, em cujas veias circulam memorandos e gravatas e cartões de ponto e declarações de missão e funcionários do mês. Ninguém se dá conta de que ela está ali há muito mais tempo do que o prédio, há muito mais tempo do que a instituição ali abrigada, há muito mais tempo do que existe cimento, concreto ou vidro: ela é invisível, é a moça que leva o café que alimenta os negócios e as úlceras, cujo nome ninguém se importou em perguntar.

Mas ela continua ali: sobrevivendo aos dias, eras, sem saber bem o porquê. E ainda sobe ao cume da montanha, este terraço onde homens engravatados vêm fumar escondidos, e quando se vê sozinha, chama por seus deuses, esquecidos por todos, menos por ela: e eles ouvem, e vêm, e a mantém: sua única devota, de tempos imemoráveis.


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