28 de jan de 2008

:: No Delta ::

(O texto que segue talvez seja continuação de :: REM ::, talvez não.)
...


O pote que ela pegou era daqueles de uma prateleira alta: dos que a velha dissera não serem dos pra se pegar.

- estão ai desde quando já nem lembro...

A menina colocou-se na ponta dos dedos, na ponta das sandálias, fazendo ranger a escada de madeira debaixo de si. Arrastou o pote, levantando a poeira que, supresa, viu-se forçada a se mexer, e desfazendo as teias de uma aranha enorme e preguiçosa, arregalando os olhos daquela senhora da idade do mundo.

- Olhe lá, menina, que você cai. - disse a velha com a voz de quem já falou por tempo demais, a ouvidos demais, enquanto andava por sua loja que cheirava a almíscar e a açúcar, a pó e a jasmim; enquanto andava por sua loja que não tinha porta e não tinha nome, e onde o sol era sempre o sol de um dia de verão à tarde, invadindo as frestas da parede e transformando em pequenos pontos de luz as milhares de partículas suspensas no ar.

Mas a menina abraçou o jarro, desceu cuidadosa e tentou olhar o que os anos de pó tentavam esconder.

- O que está aí - começou a velha - é um sonho antigo demais para se sonhar hoje, quando os dias são outros. Você sabe, minha criança, que o que há hoje é madeira que virou papel, e sol atrás de janelas, e água em garrafas. Esse sonho aí que você pegou é sonho que não se sonha mais, que não se pensa mais, daqueles que se esquece antes mesmo de acordar.

A menina nem ouvia, embevecida: via cores e sombras e luzes e caminhos e portas a abrir. Via um mar infinito, e via o que ele esconde. Via a si mesma em um sem-fim de florestas, de flores e de aromas, de cores e cogumelos e troncos cobertos de limo, sobre rios tão claros que mal se via a água.

- Ah, pois sim - continuou a velha, enquanto dava a volta no balcão. - conheço esses seus olhos, sei aonde levam. Cuidado, criança, que a vida não é para quem sonha demais. - e com sua pá e sua vassoura retirava os cacos do outro pote que a menina, atrapalhada, estilhaçara no chão em seu deslumbramento: o sonho de alguém, sempre quebrado por outro.

As mãos suadas forçavam a tampa, rodavam, deslizavam. Ela, a tampa, travada, resoluta, não se convencia a girar.

- O que há, senhora, que não consigo sonhar o que aqui está?

Apoiada na vassoura, num suspiro, a velha:

- É que o que aí está, criança - disse, então - é sonho pra mais de um sonhar...

...

Nenhum comentário: