31 de mar de 2008

:: PS ::

"8 de fevereiro de 1854.

Você não acreditaria no frio. Ou na chuva. Ou no vento que açoita as árvores, ou no quanto elas reclamam quando dobram-se sobre si mesmas, forçadas a agarrar-se à terra, temendo desabar sobre pedras e estradas e rios ao redor. Nas poucas vezes em que algum silêncio ameaça aparecer, um lobo (suponho) fareja a calmaria e aproveita para rasgar a noite com seu uivo. Assustador. Ao que parece, enfim começou a temporada de chuvas, sobre a qual todos me preveniram, mas que só agora parece digna de atenção.

Felizmente terminei na terça passada a cabana que estava construindo, conforme lhe contei na última carta. Aliás, desculpe pela demora a escrever. Papel não é das coisas mais fáceis de se conseguir, e mesmo o correio só sai uma vez a cada vinte ou trinta dias, que é quando, geralmente, aproveito para ir à cidade comprar algumas das coisas de que preciso: sal, farinha e carne-seca, por serem mais duráveis, e café, por ser meu vício e único companheiro: há pouco mais de uma semana, Daniel partiu sem dizer o motivo, ou para onde ia, ou o que quer que fosse. Então já não sei lhe dizer a que distância está meu vizinho mais próximo, e nem mesmo se há algum. Assim, eu e este lugar, que agora me acomoda sozinho, estamos passando por nossa primeira grande provação: a madeira range sob o castigo da água e do vento, e temo por vezes que as árvores das quais falei reconheçam algum dos seus parentes nas tábuas da parede e caiam sobre minha cabeça por pura vingança. Não quero que se preocupe, no entanto: tenho comigo a carabina ofertada por seu pai e a Bíblia que leio todas as noites. Hoje, há pouco, li uma passagem que dizia: “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois Tu estás comigo.” Enfim compreendi essa mensagem.

Agora é madrugada, e escrevo à luz de um toco de vela ao lado do que chamo de cama: um tapete que troquei por meia dúzia de coelhos, coberto por um lençol que Daniel deixou aqui. Há goteiras, muitas, e por vezes parece chover mais aqui dentro do que no descampado.

O fogareiro que você milagrosamente conseguiu enviar tem sido de uma utilidade que mal posso descrever, e a preocupação que tenho por mantê-lo a salvo é maior do que aquela que tenho por mim mesmo. Gosto de pensar, quando o acendo, que é você quem está mandando seu calor para mim. Penso em seu rosto, em seu sorriso, e abraço-me ao véu que usou em nosso casamento. A saudade, às vezes, parece prestes a roubar-me a razão.

Há uma coisa que lhe quero pedir. Que encontre Henrieta, e que diga que está tudo bem. Tenho tido muito tempo para pensar: o trabalho ocupa-me as mãos, mas não a mente, e meus pensamentos vão muito além do buraco de rocha que me consome os dias. Numa das vezes em que estive na cidade, ouvi na mercearia um jovem comentar sobre um explorador que não soube manusear a dinamite e acabou por explodir a si mesmo. Histórias como essa, somadas à solidão forçada, fazem tudo assumir uma nova perspectiva. Ficarei mais tranqüilo quando souber que meu pedido foi atendido, ainda que a reação dela seja a que for.

Diga a seu pai que as ferramentas estão se mostrando tão robustas quanto ele prometeu. E que, acredito que muito em breve, estarão trazendo à luz do dia aquilo que vim buscar. Agradeça a ele, muitíssimo, o voto de confiança que me dá, inclusive enquanto a deixo aí. O que faço, faço por todos nós.

A vela, agora, anuncia sua despedida, por isso preciso apressar-me na minha. Pretendo ir logo à cidade, e assim buscar mais do papel que encomendei: espere uma carta mais recheada da próxima vez.

Lembranças a todos.
De quem muito lhe quer,

R."
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24 de mar de 2008

:: A Ciranda ::

Todos os dias ele precisava organizar a beleza do mundo.

Não lembrava ao certo quando lhe fora dada tal responsabilidade, mas sabia que, agora, dele dependiam milhares de turistas afoitos, munidos que estavam com seus cartões de memória de 1 giga, com seus guias American Express, com seus bonés coloridos. E tinha de ser antes do almoço: nessa hora, dar comida aos cães seria prioridade.

A ordem era sempre a mesma: primeiro, a Europa, ainda que o Cristo estivesse por cima de todos, de braços abertos, pedindo colo.

As torres: Eiffel e Pisa. Para a primeira, entoava a Marseillaise; para a segunda, uma tarantela qualquer (ainda que, quase sempre, cantasse uma que ouvira em Montenero di Bisaccia, quando lá esteve à procura das raízes da sua família), cantada a plenos pulmões: tentava compensar a falta de criatividade com alguma potência vocal, apesar de sua voz já estar, há muito, comprometida. Não conseguia cantar música alguma para acompanhar o Taj Mahal, por isso citava alguns nomes do Mahabharata e seguia, apressado, adiante: era hora da Acrópole.

Vinha Petra, vinha Chichen Itza, vinham todas as demais maravilhas e todos os demais marcos e, enfim, o Cristo, coroando o Corcovado.

E viu ele que era bom.

Assim, afastava-se, sentando no banco de cimento em frente. Passava longos minutos admirando o que fizera, enquanto coçava o queixo sob a barba, enquanto ouvia os urros de gratidão de todos aqueles que viajavam o mundo e que, enfim, podiam ver tudo o que ele dispusera.

Satisfeito, pegava o jornal: geralmente o do dia anterior ou ainda o do dia antes desse, mas devorava-o como se fossem informações das mais privilegiadas. Lia inteiro, às vezes bradando a respeito de um ou outro assunto, expressando-se com vocábulos incompreensíveis. Os cães, ao seu lado, pacientes, permaneciam deitados.

Eram seis e meia quando a senhora que trabalha na limpeza do prédio em frente chegou. Como fazia todos os dias, ela lhe entregou café e pão, e esperou que ele perguntasse as horas. Ele perguntou, ela disse que eram seis e meia, e ele agradeceu pegando sua mão numa vênia.

(O segurança do tal prédio em frente já a repreendera diversas vezes, por causa de “doenças e coisas assim”, por causa das garrafas e latas que aquele homem colocava ritualisticamente sobre os bancos todas as manhãs. Mas ela repetia que não havia qualquer problema e que, na pior das hipóteses, bastava lavar a mão. O homem era respeitoso, e era isso o que importava.)

Aos poucos, o centro da cidade acordava. Ouvia-se as portas corridas sendo suspensas, os ônibus chegando aos seus pontos finais, e os estudantes a caminho da universidade, que invariavelmente passavam por ali. A figura barbuda com a qual cruzavam já era velha conhecida, um personagem do folclore das turmas. Por educação, ou tradição, ou apenas para parecerem mais sensíveis do que os outros e assim conquistar maior atenção das garotas, alguns desses alunos chamavam-no pelo titulo que um dia, num passado que não se queria precisar, aquele homem ostentara. As meninas, por sua vez, tinham algum medo.

- Salve, professor!

E ele, feito inteiro de sorrisos ébrios, saudava a todos, despreocupado que estava de explicar qualquer assunto, despreocupado que estava de justificar a própria existência e o próprio arremedo de vida em que agora vivia, e ao qual foi lançado por uma história que ninguém se prontificava a ouvir: talvez, e isso já lhe disseram, ouvissem em outro momento, mas não naquele, com a aula já prestes a começar.

Então, cantarolando uma das musicas que ouvira um dia numa gaita-de-foles ao lado da Catedral de Santiago, ele dançava em volta de si mesmo, em volta das maravilhas do mundo que guardava em seu saco de estopa, enquanto as pessoas da cidade seguiam para seus afazeres, enquanto seus cães o olhavam, cúmplices, sobre o cimento da calçada.
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17 de mar de 2008

:: Mimetismo ::

Como o marido não precisa acordar cedo, ela deixa a mesa posta (o pão no cesto, coberto por um pano de prato) e passa o café logo antes de sair. O horário de verão é ingrato: torna os dias longos demais. Nessas horas escuras, até o gato parece entender que o momento é de silêncio; mas espera ansioso pelo naco de carne que ela lhe dá todas as manhãs, e demonstra-o com seu ronronar ininterrupto e com carinhos tão insistentes que quase fazem sua humana de estimação cair.

Ela cruza o portão de casa sempre às 4h30. Entre o trem e o prédio lá se vão duas horas, algumas vezes passadas em pé. Mas agora tem a companhia de um pequeno rádio, presente de aniversário recebido há pouco (vaquinha do pessoal do tal prédio), que tagarelava incansável em seus ouvidos - por mais que ela achasse desconfortáveis os pequenos fones. “Parece aparelho pra surdo”, lembra de ter comentado, para riso de todos, quando recebeu o mimo.

Com a bolsa debaixo do braço e o sol ainda despertando, ela entra no prédio. Encontra o segurança já de roupa trocada, ansioso por passar o bastão para o porteiro e fugir para casa e dormir, numa triste alegoria vampiresca. Ela chega tirando os fones, sempre no exato instante em que o locutor lhe diria os conselhos dos astros: preferia não saber, ou deixar para descobrir ao folhear o jornal na hora do almoço. Conversam amenidades. Ele vai embora, ela para o elevador.

Seu armário ficava no décimo andar, o mesmo que acabara de receber uma passarela para o prédio vizinho, a fim de servir de rota de fuga em caso de incêndio. Àqueles que, como ela, mantinham limpas as entranhas do edifício, já confessara preferir enfrentar as chamas a colocar um pé que fosse naquele arremedo periclitante de segurança. Guardou a bolsa, o rádio, as roupas; vestiu o uniforme branco e indiferente, sacou seus baldes e o rodo, colocou-se a andar. Limpou e perfumou com frescores enlatados todos os ambientes por onde passou.

Quando as pessoas de terno chegam, tudo está pronto para recebê-las. Corredores, portas, paredes. No elevador da esquerda – acolchoado para proteger os móveis num eventual transporte – ela sobe e desce transportando sacos pretos: neles, tudo aquilo que é dispensável aos outros, já devidamente separado em lixo orgânico e inorgânico por eles, preocupadíssimos que estão com a natureza, com o aquecimento global e com o bem-estar social. Nos horários de pico, algumas dessas pessoas também entram nesse elevador: chegam reclamando de atrasos, mais do que o Coelho Branco da Alice conseguiria, como que para justificar a própria presença ali. E torcem o nariz por causa do cheiro, falam alguma coisa sobre o índice BOVESPA e saem sem notar que a moça da limpeza estava lá.

Uma hora para o almoço. A quentinha do dia sempre vinha com arroz demais. Ela não gastava mais de vinte minutos comendo, dedicando os outros quarenta a talvez ler o tal horóscopo, a talvez permitir-se não pensar em nada. Gostava de refugiar-se no banheiro, de sentar-se na cadeira ao lado da bancada de mármore, de apoiar a cabeça nas mãos. Olhava para o nada. As moças entravam e saíam, fazendo comentários dos mais íntimos sobre todos, com a certeza de que ninguém as estava ouvindo.

Naquele dia ela precisava sair mais cedo: aniversário do neto (dois anos). Não havia problema, o chefe estava avisado e até pedira que desse seus parabéns aos pais. Por isso, às cinco, já sem o uniforme, ela desceu pelo elevador acolchoado para voltar ao trem.

O advogado do 1305, este sim desavisado, irritou-se porque a senhora não tinha ido recolher a caixa que ele acabara de colocar porta afora. Assim, saiu perguntando aos colegas por ela.

Mas ninguém sabia de quem ele estava falando.
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Inspirado no post "
Madames e Mucamos", da Carol Costa.
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10 de mar de 2008

:: Matryoshka ::

Para quem a via, parecia mal se mexer: em sua velha cadeira de balanço, ao lado da janela (a que pega o sol), ela nina o gato que já parece estar na sexta das vidas que lhe cabem. Assim passam as horas da manhã, vão e vêm todos, apressados, em seus afazeres de fim de semana, como se aquela senhora não fosse mais do que o mero conceito que se faz a respeito de qualquer coisa – gente ou instituição – que conta noventa e quatro anos de existência.

Ela está em silêncio. Esse, agora, é o seu mundo. Mas não é um mundo quieto: por detrás dos olhos de um azul incompreensível, quem corre ainda é a menina que, naquela mesma casa, aventurava-se acima e abaixo das escadas, que agora rangem, firmes e resolutas, sob o peso de qualquer um que não lhes renda o devido respeito.


Em seus olhos, o espelho do quarto da mãe, e o cheiro da vela aromática (canela e erva-cidreira), e a leve brisa que, passando pelas palmeiras imperiais, agitavam a levíssima cortina de seda branca que o pai, capitão-de-mar-e-guerra, trouxera de uma das suas fantásticas viagens ao oriente. Em seus sonhos, ela via cada um desses lugares que só viria a conhecer em sua lua-de-mel, aos vinte e dois anos, e a admirar com a fome de quem foi embalada noites a fio por Sherazade.


Diante do tal espelho, passeava por todas as roupas e por toda a maquiagem da mãe: sombra nos olhos (que só assim escureciam), batom vermelho, saltos e vestido rendado, além, claro, da leve tensão de ser descoberta. Hoje, ri ao lembrar de quando soube que sua travessura já era conhecida há tempos.


E lembra da efígie materna surgindo atrás de si, enquanto ela, nervosa, procurava o que fazer com as mãos. Então lembra da mãe curvando-se e, num sorriso surpreendente e só dela, pedindo que a maquiasse também. Lembra da tarde que tiveram, e do quanto riram, e de quantos personagens encarnaram. Lembra do barulho que atraiu os empregados, que, pasmos, viram a caríssima maquiagem gasta à exaustão. Lembra do gritinho que deu quando o pai, de volta inesperadamente, flagrou-as. E que ele, sem perder a pose cunhada em anos de serviço militar, disse que ao ver jovens tão lindas não tinha outra alternativa a não ser levá-las para jantar.


E jantaram, e ela devorou todo o imenso sorvete que chegava mesmo a esconder o seu rosto: o episódio seria lembrado incontáveis vezes, sempre acompanhado por risos.


Lembra que, esgotada, adormeceu no banco de trás do magnífico rabo-de-peixe. E lembra que acordou brevemente, apenas a tempo de flagrar um beijo dos pais, sob a lua que parecia brilhar mais intensamente na água da represa do que no céu.


Ela lembra de tudo perfeitamente. E teria muito mais a contar a quem lhe quisesse ouvir


Mas, antes disso, com um toque em seu ombro, a bisneta lhe estende a mão para conduzi-la à mesa do almoço.


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Publicado por Renato Alt

3 de mar de 2008

:: Noir ::

Eram quase três horas da madrugada entre um sábado e algum domingo, enquanto a chuva incessante escondia a música do rádio, de ironia quase impossível: Drive, por The Cars.

Ele costumava estar sempre ali, olhando da rua para a janela que, volta e meia, deixava entrever alguma coisa por suas cortinas. O café em sua mão aquecia o copo de papel grosso, estampado e colorido, anunciando outras bebidas para quando resolvesse passar de novo por alguma das "quase duas mil lojas espalhadas por todo o território nacional, com uma sempre perto de você".

Mas naquela noite, como em tantas outras, sua companhia era apenas uma silhueta: a daquela que, dia após dia, parecia afastar-se tanto mais ele a conhecia. Aquela de quem, à essa altura, já tinha todos os passos anotados: sabia a que horas saía de casa, e sabia que gostava de comprar café preto e croissant a caminho do metrô. Sabia que chegava sempre cedo demais no escritório, e que usava o horário do almoço para ir à academia. Sabia que ia ao cinema, sozinha, toda quinta-feira, e que de lá costumava ir à Galerie Lafayette apenas para ver o movimento. Sabia que lá experimentava meia-dúzia de perfumes, e que gostava de ser abordada por algum turista para treinar seu inglês. Sabia, inclusive, que esse inglês de fato carecia de treino.

Ele a acompanhava, de longe, muitas dessas vezes.

Agora, nesta madrugada perdida, olhava de dentro do carro, pensando que poderia tocar o interfone da sua casa. Pensava que ela poderia atendê-lo, assustada mas curiosa, e que essa curiosidade talvez a fizesse abrir a porta. Talvez ele falasse inglês e se afirmasse um turista perdido. Então ele subiria, e a veria de perto, e ela, condoída, lhe ofereceria chá e olhares. Ele pegaria sua mão, e suspiraria um suspiro tão íntimo que palavra alguma precisaria ser dita.

(Ele não era bom com palavras. Na verdade, ainda não havia descoberto no quê era bom. Nas reuniões das quartas-feiras, afirmavam que todos nós temos algum dom especial: que talvez, apenas, ainda não os tenhamos deixado aflorar.)

Assim, ele continuava sentado, com seu café, com seus pensamentos, e com outra música que começava: Letting The Cable Sleep, do Bush, na versão do N.O.W. para o Café del Mar. No apartamento, a luz mudava do amarelo incandescente para o azul indiferente da TV: à essa hora, apenas programas anunciando produtos milagrosos e novas posturas para a vida. Ele media, então, uma solidão tão grande quanto a sua.

No dia seguinte, talvez, ele falasse com ela. Talvez oferecesse carona. Talvez até comprasse, antes, o tal café e o croissant, e a convidasse para ir ao cinema na quinta-feira seguinte.

Talvez.

Mas ele sabia, aflito, que tudo poderia permanecer imutável: imerso nele mesmo, nos mundos que fantasiou, enquanto a atenção dela ainda seria servida a estrangeiros cujos nomes ela jamais saberia, mas com quem dividiria um momento de inglês mal falado, e um comentário sobre o preço de alguma coisa, e por fim um adeus pasteurizado.

Talvez.

A luz da tevê, de repente, sumira. Agora, alguém a encontrará em algum sonho.

Então, virando a chave do carro, ele volta para a noite de onde saiu.
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