10 de mar de 2008

:: Matryoshka ::

Para quem a via, parecia mal se mexer: em sua velha cadeira de balanço, ao lado da janela (a que pega o sol), ela nina o gato que já parece estar na sexta das vidas que lhe cabem. Assim passam as horas da manhã, vão e vêm todos, apressados, em seus afazeres de fim de semana, como se aquela senhora não fosse mais do que o mero conceito que se faz a respeito de qualquer coisa – gente ou instituição – que conta noventa e quatro anos de existência.

Ela está em silêncio. Esse, agora, é o seu mundo. Mas não é um mundo quieto: por detrás dos olhos de um azul incompreensível, quem corre ainda é a menina que, naquela mesma casa, aventurava-se acima e abaixo das escadas, que agora rangem, firmes e resolutas, sob o peso de qualquer um que não lhes renda o devido respeito.


Em seus olhos, o espelho do quarto da mãe, e o cheiro da vela aromática (canela e erva-cidreira), e a leve brisa que, passando pelas palmeiras imperiais, agitavam a levíssima cortina de seda branca que o pai, capitão-de-mar-e-guerra, trouxera de uma das suas fantásticas viagens ao oriente. Em seus sonhos, ela via cada um desses lugares que só viria a conhecer em sua lua-de-mel, aos vinte e dois anos, e a admirar com a fome de quem foi embalada noites a fio por Sherazade.


Diante do tal espelho, passeava por todas as roupas e por toda a maquiagem da mãe: sombra nos olhos (que só assim escureciam), batom vermelho, saltos e vestido rendado, além, claro, da leve tensão de ser descoberta. Hoje, ri ao lembrar de quando soube que sua travessura já era conhecida há tempos.


E lembra da efígie materna surgindo atrás de si, enquanto ela, nervosa, procurava o que fazer com as mãos. Então lembra da mãe curvando-se e, num sorriso surpreendente e só dela, pedindo que a maquiasse também. Lembra da tarde que tiveram, e do quanto riram, e de quantos personagens encarnaram. Lembra do barulho que atraiu os empregados, que, pasmos, viram a caríssima maquiagem gasta à exaustão. Lembra do gritinho que deu quando o pai, de volta inesperadamente, flagrou-as. E que ele, sem perder a pose cunhada em anos de serviço militar, disse que ao ver jovens tão lindas não tinha outra alternativa a não ser levá-las para jantar.


E jantaram, e ela devorou todo o imenso sorvete que chegava mesmo a esconder o seu rosto: o episódio seria lembrado incontáveis vezes, sempre acompanhado por risos.


Lembra que, esgotada, adormeceu no banco de trás do magnífico rabo-de-peixe. E lembra que acordou brevemente, apenas a tempo de flagrar um beijo dos pais, sob a lua que parecia brilhar mais intensamente na água da represa do que no céu.


Ela lembra de tudo perfeitamente. E teria muito mais a contar a quem lhe quisesse ouvir


Mas, antes disso, com um toque em seu ombro, a bisneta lhe estende a mão para conduzi-la à mesa do almoço.


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Publicado por Renato Alt

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