17 de mar de 2008

:: Mimetismo ::

Como o marido não precisa acordar cedo, ela deixa a mesa posta (o pão no cesto, coberto por um pano de prato) e passa o café logo antes de sair. O horário de verão é ingrato: torna os dias longos demais. Nessas horas escuras, até o gato parece entender que o momento é de silêncio; mas espera ansioso pelo naco de carne que ela lhe dá todas as manhãs, e demonstra-o com seu ronronar ininterrupto e com carinhos tão insistentes que quase fazem sua humana de estimação cair.

Ela cruza o portão de casa sempre às 4h30. Entre o trem e o prédio lá se vão duas horas, algumas vezes passadas em pé. Mas agora tem a companhia de um pequeno rádio, presente de aniversário recebido há pouco (vaquinha do pessoal do tal prédio), que tagarelava incansável em seus ouvidos - por mais que ela achasse desconfortáveis os pequenos fones. “Parece aparelho pra surdo”, lembra de ter comentado, para riso de todos, quando recebeu o mimo.

Com a bolsa debaixo do braço e o sol ainda despertando, ela entra no prédio. Encontra o segurança já de roupa trocada, ansioso por passar o bastão para o porteiro e fugir para casa e dormir, numa triste alegoria vampiresca. Ela chega tirando os fones, sempre no exato instante em que o locutor lhe diria os conselhos dos astros: preferia não saber, ou deixar para descobrir ao folhear o jornal na hora do almoço. Conversam amenidades. Ele vai embora, ela para o elevador.

Seu armário ficava no décimo andar, o mesmo que acabara de receber uma passarela para o prédio vizinho, a fim de servir de rota de fuga em caso de incêndio. Àqueles que, como ela, mantinham limpas as entranhas do edifício, já confessara preferir enfrentar as chamas a colocar um pé que fosse naquele arremedo periclitante de segurança. Guardou a bolsa, o rádio, as roupas; vestiu o uniforme branco e indiferente, sacou seus baldes e o rodo, colocou-se a andar. Limpou e perfumou com frescores enlatados todos os ambientes por onde passou.

Quando as pessoas de terno chegam, tudo está pronto para recebê-las. Corredores, portas, paredes. No elevador da esquerda – acolchoado para proteger os móveis num eventual transporte – ela sobe e desce transportando sacos pretos: neles, tudo aquilo que é dispensável aos outros, já devidamente separado em lixo orgânico e inorgânico por eles, preocupadíssimos que estão com a natureza, com o aquecimento global e com o bem-estar social. Nos horários de pico, algumas dessas pessoas também entram nesse elevador: chegam reclamando de atrasos, mais do que o Coelho Branco da Alice conseguiria, como que para justificar a própria presença ali. E torcem o nariz por causa do cheiro, falam alguma coisa sobre o índice BOVESPA e saem sem notar que a moça da limpeza estava lá.

Uma hora para o almoço. A quentinha do dia sempre vinha com arroz demais. Ela não gastava mais de vinte minutos comendo, dedicando os outros quarenta a talvez ler o tal horóscopo, a talvez permitir-se não pensar em nada. Gostava de refugiar-se no banheiro, de sentar-se na cadeira ao lado da bancada de mármore, de apoiar a cabeça nas mãos. Olhava para o nada. As moças entravam e saíam, fazendo comentários dos mais íntimos sobre todos, com a certeza de que ninguém as estava ouvindo.

Naquele dia ela precisava sair mais cedo: aniversário do neto (dois anos). Não havia problema, o chefe estava avisado e até pedira que desse seus parabéns aos pais. Por isso, às cinco, já sem o uniforme, ela desceu pelo elevador acolchoado para voltar ao trem.

O advogado do 1305, este sim desavisado, irritou-se porque a senhora não tinha ido recolher a caixa que ele acabara de colocar porta afora. Assim, saiu perguntando aos colegas por ela.

Mas ninguém sabia de quem ele estava falando.
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Inspirado no post "
Madames e Mucamos", da Carol Costa.
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