3 de mar de 2008

:: Noir ::

Eram quase três horas da madrugada entre um sábado e algum domingo, enquanto a chuva incessante escondia a música do rádio, de ironia quase impossível: Drive, por The Cars.

Ele costumava estar sempre ali, olhando da rua para a janela que, volta e meia, deixava entrever alguma coisa por suas cortinas. O café em sua mão aquecia o copo de papel grosso, estampado e colorido, anunciando outras bebidas para quando resolvesse passar de novo por alguma das "quase duas mil lojas espalhadas por todo o território nacional, com uma sempre perto de você".

Mas naquela noite, como em tantas outras, sua companhia era apenas uma silhueta: a daquela que, dia após dia, parecia afastar-se tanto mais ele a conhecia. Aquela de quem, à essa altura, já tinha todos os passos anotados: sabia a que horas saía de casa, e sabia que gostava de comprar café preto e croissant a caminho do metrô. Sabia que chegava sempre cedo demais no escritório, e que usava o horário do almoço para ir à academia. Sabia que ia ao cinema, sozinha, toda quinta-feira, e que de lá costumava ir à Galerie Lafayette apenas para ver o movimento. Sabia que lá experimentava meia-dúzia de perfumes, e que gostava de ser abordada por algum turista para treinar seu inglês. Sabia, inclusive, que esse inglês de fato carecia de treino.

Ele a acompanhava, de longe, muitas dessas vezes.

Agora, nesta madrugada perdida, olhava de dentro do carro, pensando que poderia tocar o interfone da sua casa. Pensava que ela poderia atendê-lo, assustada mas curiosa, e que essa curiosidade talvez a fizesse abrir a porta. Talvez ele falasse inglês e se afirmasse um turista perdido. Então ele subiria, e a veria de perto, e ela, condoída, lhe ofereceria chá e olhares. Ele pegaria sua mão, e suspiraria um suspiro tão íntimo que palavra alguma precisaria ser dita.

(Ele não era bom com palavras. Na verdade, ainda não havia descoberto no quê era bom. Nas reuniões das quartas-feiras, afirmavam que todos nós temos algum dom especial: que talvez, apenas, ainda não os tenhamos deixado aflorar.)

Assim, ele continuava sentado, com seu café, com seus pensamentos, e com outra música que começava: Letting The Cable Sleep, do Bush, na versão do N.O.W. para o Café del Mar. No apartamento, a luz mudava do amarelo incandescente para o azul indiferente da TV: à essa hora, apenas programas anunciando produtos milagrosos e novas posturas para a vida. Ele media, então, uma solidão tão grande quanto a sua.

No dia seguinte, talvez, ele falasse com ela. Talvez oferecesse carona. Talvez até comprasse, antes, o tal café e o croissant, e a convidasse para ir ao cinema na quinta-feira seguinte.

Talvez.

Mas ele sabia, aflito, que tudo poderia permanecer imutável: imerso nele mesmo, nos mundos que fantasiou, enquanto a atenção dela ainda seria servida a estrangeiros cujos nomes ela jamais saberia, mas com quem dividiria um momento de inglês mal falado, e um comentário sobre o preço de alguma coisa, e por fim um adeus pasteurizado.

Talvez.

A luz da tevê, de repente, sumira. Agora, alguém a encontrará em algum sonho.

Então, virando a chave do carro, ele volta para a noite de onde saiu.
...

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