28 de abr de 2008

:: Termo ::

Não sabiam dizer quando foi que aconteceu, e nem poderiam, claro, ou não teriam chegado até aqui, mas era onde estavam, e é isso o que era: já não sabiam mais falar. Quer dizer, saber, sabiam, mas já não bastava, porque não era só uma questão de abrir a boca e deixar as palavras saírem, mas de fazer que chegassem ao outro e que, afinal, significassem alguma coisa.

E já não chegavam. Não alcançavam.

Todos, claro, eram educados e polidos e haviam lido muito e muitos, e citavam seus autores prediletos como se falassem das próprias idéias, mas quais seriam essas, de fato, não tinham a menor suspeita, e nem ao menos se preocupavam com isso porque havia outras coisas mais preocupantes no momento, ou era o que achavam, pelo menos.

Quem apontou a questão foi um fulano cujo nome não importa porque a ninguém importou o que ele disse, mas que foi isso: que nada mais tem significado. A reação que se ouviu foi "quem?", "hein?" e uma infinidade de "o quês?", e então ele tentou explicar, mas é claro que não foi entendido: "todo mundo diz que me ama." Pensaram que era um convencido, mas ele disse que não foi isso o que quis dizer, e que, afinal, terem entendido outra coisa era justamente o ponto.

Todos deram de ombros e foram ver TV, porque era a estréia daquele programa que parecia ótimo.

Mas era isso: falavam de amor como quem fala do peito de frango que estava um pouco ressecado no almoço do último domingo, ou de saudade como quem fala da unha do dedinho do pé que saiu quase inteira naquela topada no batente da porta.

Nenhuma palavra mais tinha propriedade, objeto ou sentimento: era tudo uma mecanização de verbos e de dias de trabalho e de cartões de ponto e de hora de almoço e de sexo casual e de comida pronta.

Ele tentou explicar ainda mais uma vez, quando estavam à mesa do bar. Mas pediram silêncio, porque a TV estava ligada e o programa que estreara dias antes era mesmo ótimo.
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21 de abr de 2008

:: Shopping ::

A casa era repleta de móveis, quase todos não mais usados. Pouco a pouco a prataria e a louça que guardavam, além de tanto mais, foi sendo levada: afinal, há contas a pagar. Na sala havia três cucos, ainda que apenas um funcionando, cantando as horas, incansável, para ninguém. Uma quantidade incontável de bibelôs acotovelava-se sobre bancadas de mogno, enquanto cadeiras e poltronas organizavam-se em configurações impossíveis. A pesada cortina sobre a janela parecia dividir o dia em dois, e qualquer luz que se esgueirasse por suas frestas iluminava uma infinidade de partículas suspensas no ar. Nas paredes, histórias esquecidas eram contadas em imponentes painéis, ainda que o valor de cada um deles, hoje, estivesse na assinatura dos seus autores, e não mais naqueles que retratavam. A tapeçaria que suportara o peso de homens, de mulheres e de decisões, que ouvira confidências e indiscrições, agora, quando tanto, servia para aconchegar alguns dos gatos que erravam por ali.

Sob a luz de outono, a mansão parecia acumular mais anos do que contava.

Do quarto principal, que ficava ao final do corredor no segundo andar, ela podia lembrar de quando o jardim apresentava-se majestoso, e do quanto lhe dava prazer caminhar por entre as sebes e descobrir, por acaso, um outro ninho. Lembrava das noites quando tochas iluminavam as festas e disputavam atenção com o céu. Gostava, em particular, de caminhar pelo labirinto que tanto pedira que construíssem, e de molhar as mãos na pretensiosa réplica da Fontana-Del-Tritone que descansava ali. Nela ainda havia algumas moedas, lançadas em tempos imemoriais por convidados ansiosos por um toque de misticismo.

Da janela também podia ver a estufa e o orquidário. Neles, no entanto, nada havia há muito tempo, a não ser o eterno cheiro de terra úmida e as teias de aranha que ninguém mais se dispunha a tirar.

Ao lado do quarto ficava a sala do piano, que abrigara tantos recitais, e a saleta onde as crianças eram entretidas para que seus pais ficassem à vontade.

“São cômodos demais, precisam de pessoas demais, e as coisas hoje são diferentes” – é o que lhe diziam filhos (não todos), sobrinhos e netos, quando comparavam a história contada por aqueles tijolos à soma que veriam acrescida às suas contas bancárias.

E eles, certos de que seria o melhor para todos, disseram ao curador que chegasse às três.

Antes de sair, ela pediu para pegar a boneca chinesa que ficava no corredor.

E na sala, contrariado, o cuco cantou.

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14 de abr de 2008

:: Acciaccatura ::

Às oito, eram dez.

O assunto, então, era quase nenhum: alguns resultados do futebol e as velhas implicâncias de sempre, porque o atacante é um perna-de-pau e o placar fora comprado. Ou ainda o filme vencedor do Oscar, supervalorizado, e aquela atriz linda que mais uma vez estava internada.

Pouco depois vieram as leis, as controvérsias e jurisprudências e aquela tal emenda absurda. Falaram do Senado, da superpopulação carcerária, da castração química, do Guia Michellin e do albergue em Bilbao que fica bem próximo ao museu.

Passados os dias de hoje, puseram-se a falar daqueles de amanhã. Expectativas, novos trabalhos, e sobre onde estaria ele, o amigo perdido, que não se acerta nunca.

Às dez, eram seis.

O que estava posto à mesa eram sonhos, e era o incômodo da idade que se impõe sobre eles. E eram desafios, e era aquele louco que largou tudo e que vive, conforme souberam, em um mosteiro em Anuradhapura.

Então tudo o que não foi feito era lembrado, talvez lamentado por um instante ou dois, mas logo justificado: afinal, hemos que trabalhar, porque agora crescemos e somos adultos e somos responsáveis e pais de família e cidadãos que pagam impostos e que cumprem deveres e que exigem seus direitos.

À meia-noite, eram três.

Agora queriam saber melhor quem eram, onde estavam, e talvez entender em que lugar do caminho perderam-se de si mesmos. Lembravam das fotos de quando tinham todo o tempo do mundo, de quando todas as profissões estavam disponíveis e todas as mulheres ao alcance de uma paixão (já não havia nenhuma ali, agora).

Falaram daquela viagem quando a chuva alagou o camping e as roupas, e do frio que passaram no final de semana, condenados que estavam às sungas. Falaram do macarrão instantâneo, da festa que invadiram e das tão poucas respostas que econtravam para a miríade de perguntas que confessavam.

Era uma, eram dois.

E restava dizer o que não se queria, mas que era preciso, porque era doído e porque não se pode exorcizar um demônio sem lhe citar o nome. Era sobre desamores e dissabores e o que aconteceu para que chegassem a isso. Talvez o que era falado já houvesse sido antes, mas é agora a hora em que incomoda, quando todas as demais horas lúcidas já se foram, e o que procuram é aconchego e cumplicidade, e o vinho e o perfume dos cabelos daquela garota que jamais conheceram.

Às duas, era um.

Então fechou a conta e, só, voltou pra casa.
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7 de abr de 2008

:: A. ::

"21 de maio de 1854

Nenhum dia é mais belo do que aquele em que minhas mãos pegam palavras suas.

Me angustiam os dias de silêncio. Me angustia esse seu estar não-sei-onde, sujeito a homens e aos humores da natureza. Me angustia imaginar o que houve no minuto seguinte ao adeus em sua carta, e ainda mais a idéia de que esta pode não lhe chegar às mãos. Me angustia sua busca incessante, me angustia esta sociedade que lhe impõe sua versão de sucesso, me angustia que eu mesma não tenha impedido sua partida e o monstruoso nascimento das milhas entre nós. Me angustia não poder ver seus olhos, e me angustia saber que uma frase dita agora levará ainda uma cavalgada para lhe alcançar.

Perdoe-me o desabafo. As palavras se impuseram sobre a razão, exigindo-me liberdade. Não quero que o que digo esmoreça suas mãos ou seu espírito: é apenas a voz de quem sente sua falta mais do que poderia compreender.

Os dias arrastam-se numa lentidão impossível, e temo que minha lucidez desvaneça a cada pôr-do-sol. Flagro-me olhando pela janela, a que fica em frente à Rua Principal, na esperança de a qualquer momento vê-lo caminhando em minha direção. Não fico em paz se me ausento por mais de dez minutos, temendo não estar à porta para recebê-lo, para tirar a poeira do seu rosto e a saudade do coração.

Hoje tivemos uma tarde de sol inclemente, mas a noite trouxe chuva, e ela permitiu sentir-me mais próxima a você. Sinto agora o cheiro da terra molhada, e conforta-me saber que é o mesmo que sente quando chove também sobre seus dias.

Minha ansiedade por enviar-lhe logo algumas letras fez-me sair correndo ao encontro de Henrieta, com seu recado. Tempos atrás ela procurou-me, quase aos prantos, pedindo notícias suas, dizendo não compreender a si mesma, punindo-se por ter agido como agiu. Na ocasião eu a confortei, antecipando o que você diria. Sei com que homem casei. Mas, para ela, ver sua caligrafia perdoando-a foi como ter devolvidos vinte anos de vida.

O que disse sobre Daniel me entristece, mas não surpreende: nele havia apenas o romantismo da aventura. Não hei de estranhar se bater brevemente à nossa porta, munido de alguma história incrível e rica em detalhes para justificar sua deserção. Não permita-se nutrir qualquer sentimento desconfortável em relação a ele: de nada adiantaria, e o excesso de pensamentos gerados por seu silencioso labor poderiam roubar-lhe a paz. Se tristeza lhe acometer a alma, refugie-se nos Salmos e na lembrança desta que, com absoluta certeza, também estará pensando em você.

Meu pai, mais uma vez, pede que lhe diga que está sempre em suas orações. Saiba que ele sente-se um fiel participante de sua empreitada, uma vez que as ferramentas que ora usa são aquelas que ele mesmo escolheu. Amigos dele estão aqui agora, jogando algum carteado incompreensível, e posso garantir já ter ouvido seu nome ao menos três vezes.

Anseio pelos dias em que conversaremos sobre tudo isso à volta da mesa, sob os olhares atentos dos nossos filhos, enquanto comem biscoitos recém-saídos do forno e pensam não estarmos vendo quando dão alguns deles para os cachorros.

Envio com esta alguns potes da compota elaborada por minha avó. Ainda que ela tenha reclamado à exaustão que eu quisesse tantos, preferiu ficar horas ao fogão a dar-me a receita. “Você a terá quando tiver de ter”, repetiu, enquanto mexia a enorme panela, espalhando o perfume adocicado por toda a casa. Espero que todos sobrevivam aos solavancos dos cavalos e à curiosidade (e conseqüente apetite) dos homens que os levarão até suas mãos.

Prometa-me cuidar mais de você. Prometa-me trabalhar, mas não cultivar uma obsessão, estendendo sua estada para além de nós dois.

Com mais amor do que eu saberia expressar,

A. "

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