14 de abr de 2008

:: Acciaccatura ::

Às oito, eram dez.

O assunto, então, era quase nenhum: alguns resultados do futebol e as velhas implicâncias de sempre, porque o atacante é um perna-de-pau e o placar fora comprado. Ou ainda o filme vencedor do Oscar, supervalorizado, e aquela atriz linda que mais uma vez estava internada.

Pouco depois vieram as leis, as controvérsias e jurisprudências e aquela tal emenda absurda. Falaram do Senado, da superpopulação carcerária, da castração química, do Guia Michellin e do albergue em Bilbao que fica bem próximo ao museu.

Passados os dias de hoje, puseram-se a falar daqueles de amanhã. Expectativas, novos trabalhos, e sobre onde estaria ele, o amigo perdido, que não se acerta nunca.

Às dez, eram seis.

O que estava posto à mesa eram sonhos, e era o incômodo da idade que se impõe sobre eles. E eram desafios, e era aquele louco que largou tudo e que vive, conforme souberam, em um mosteiro em Anuradhapura.

Então tudo o que não foi feito era lembrado, talvez lamentado por um instante ou dois, mas logo justificado: afinal, hemos que trabalhar, porque agora crescemos e somos adultos e somos responsáveis e pais de família e cidadãos que pagam impostos e que cumprem deveres e que exigem seus direitos.

À meia-noite, eram três.

Agora queriam saber melhor quem eram, onde estavam, e talvez entender em que lugar do caminho perderam-se de si mesmos. Lembravam das fotos de quando tinham todo o tempo do mundo, de quando todas as profissões estavam disponíveis e todas as mulheres ao alcance de uma paixão (já não havia nenhuma ali, agora).

Falaram daquela viagem quando a chuva alagou o camping e as roupas, e do frio que passaram no final de semana, condenados que estavam às sungas. Falaram do macarrão instantâneo, da festa que invadiram e das tão poucas respostas que econtravam para a miríade de perguntas que confessavam.

Era uma, eram dois.

E restava dizer o que não se queria, mas que era preciso, porque era doído e porque não se pode exorcizar um demônio sem lhe citar o nome. Era sobre desamores e dissabores e o que aconteceu para que chegassem a isso. Talvez o que era falado já houvesse sido antes, mas é agora a hora em que incomoda, quando todas as demais horas lúcidas já se foram, e o que procuram é aconchego e cumplicidade, e o vinho e o perfume dos cabelos daquela garota que jamais conheceram.

Às duas, era um.

Então fechou a conta e, só, voltou pra casa.
...

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