7 de abr de 2008

:: A. ::

"21 de maio de 1854

Nenhum dia é mais belo do que aquele em que minhas mãos pegam palavras suas.

Me angustiam os dias de silêncio. Me angustia esse seu estar não-sei-onde, sujeito a homens e aos humores da natureza. Me angustia imaginar o que houve no minuto seguinte ao adeus em sua carta, e ainda mais a idéia de que esta pode não lhe chegar às mãos. Me angustia sua busca incessante, me angustia esta sociedade que lhe impõe sua versão de sucesso, me angustia que eu mesma não tenha impedido sua partida e o monstruoso nascimento das milhas entre nós. Me angustia não poder ver seus olhos, e me angustia saber que uma frase dita agora levará ainda uma cavalgada para lhe alcançar.

Perdoe-me o desabafo. As palavras se impuseram sobre a razão, exigindo-me liberdade. Não quero que o que digo esmoreça suas mãos ou seu espírito: é apenas a voz de quem sente sua falta mais do que poderia compreender.

Os dias arrastam-se numa lentidão impossível, e temo que minha lucidez desvaneça a cada pôr-do-sol. Flagro-me olhando pela janela, a que fica em frente à Rua Principal, na esperança de a qualquer momento vê-lo caminhando em minha direção. Não fico em paz se me ausento por mais de dez minutos, temendo não estar à porta para recebê-lo, para tirar a poeira do seu rosto e a saudade do coração.

Hoje tivemos uma tarde de sol inclemente, mas a noite trouxe chuva, e ela permitiu sentir-me mais próxima a você. Sinto agora o cheiro da terra molhada, e conforta-me saber que é o mesmo que sente quando chove também sobre seus dias.

Minha ansiedade por enviar-lhe logo algumas letras fez-me sair correndo ao encontro de Henrieta, com seu recado. Tempos atrás ela procurou-me, quase aos prantos, pedindo notícias suas, dizendo não compreender a si mesma, punindo-se por ter agido como agiu. Na ocasião eu a confortei, antecipando o que você diria. Sei com que homem casei. Mas, para ela, ver sua caligrafia perdoando-a foi como ter devolvidos vinte anos de vida.

O que disse sobre Daniel me entristece, mas não surpreende: nele havia apenas o romantismo da aventura. Não hei de estranhar se bater brevemente à nossa porta, munido de alguma história incrível e rica em detalhes para justificar sua deserção. Não permita-se nutrir qualquer sentimento desconfortável em relação a ele: de nada adiantaria, e o excesso de pensamentos gerados por seu silencioso labor poderiam roubar-lhe a paz. Se tristeza lhe acometer a alma, refugie-se nos Salmos e na lembrança desta que, com absoluta certeza, também estará pensando em você.

Meu pai, mais uma vez, pede que lhe diga que está sempre em suas orações. Saiba que ele sente-se um fiel participante de sua empreitada, uma vez que as ferramentas que ora usa são aquelas que ele mesmo escolheu. Amigos dele estão aqui agora, jogando algum carteado incompreensível, e posso garantir já ter ouvido seu nome ao menos três vezes.

Anseio pelos dias em que conversaremos sobre tudo isso à volta da mesa, sob os olhares atentos dos nossos filhos, enquanto comem biscoitos recém-saídos do forno e pensam não estarmos vendo quando dão alguns deles para os cachorros.

Envio com esta alguns potes da compota elaborada por minha avó. Ainda que ela tenha reclamado à exaustão que eu quisesse tantos, preferiu ficar horas ao fogão a dar-me a receita. “Você a terá quando tiver de ter”, repetiu, enquanto mexia a enorme panela, espalhando o perfume adocicado por toda a casa. Espero que todos sobrevivam aos solavancos dos cavalos e à curiosidade (e conseqüente apetite) dos homens que os levarão até suas mãos.

Prometa-me cuidar mais de você. Prometa-me trabalhar, mas não cultivar uma obsessão, estendendo sua estada para além de nós dois.

Com mais amor do que eu saberia expressar,

A. "

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