21 de abr de 2008

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A casa era repleta de móveis, quase todos não mais usados. Pouco a pouco a prataria e a louça que guardavam, além de tanto mais, foi sendo levada: afinal, há contas a pagar. Na sala havia três cucos, ainda que apenas um funcionando, cantando as horas, incansável, para ninguém. Uma quantidade incontável de bibelôs acotovelava-se sobre bancadas de mogno, enquanto cadeiras e poltronas organizavam-se em configurações impossíveis. A pesada cortina sobre a janela parecia dividir o dia em dois, e qualquer luz que se esgueirasse por suas frestas iluminava uma infinidade de partículas suspensas no ar. Nas paredes, histórias esquecidas eram contadas em imponentes painéis, ainda que o valor de cada um deles, hoje, estivesse na assinatura dos seus autores, e não mais naqueles que retratavam. A tapeçaria que suportara o peso de homens, de mulheres e de decisões, que ouvira confidências e indiscrições, agora, quando tanto, servia para aconchegar alguns dos gatos que erravam por ali.

Sob a luz de outono, a mansão parecia acumular mais anos do que contava.

Do quarto principal, que ficava ao final do corredor no segundo andar, ela podia lembrar de quando o jardim apresentava-se majestoso, e do quanto lhe dava prazer caminhar por entre as sebes e descobrir, por acaso, um outro ninho. Lembrava das noites quando tochas iluminavam as festas e disputavam atenção com o céu. Gostava, em particular, de caminhar pelo labirinto que tanto pedira que construíssem, e de molhar as mãos na pretensiosa réplica da Fontana-Del-Tritone que descansava ali. Nela ainda havia algumas moedas, lançadas em tempos imemoriais por convidados ansiosos por um toque de misticismo.

Da janela também podia ver a estufa e o orquidário. Neles, no entanto, nada havia há muito tempo, a não ser o eterno cheiro de terra úmida e as teias de aranha que ninguém mais se dispunha a tirar.

Ao lado do quarto ficava a sala do piano, que abrigara tantos recitais, e a saleta onde as crianças eram entretidas para que seus pais ficassem à vontade.

“São cômodos demais, precisam de pessoas demais, e as coisas hoje são diferentes” – é o que lhe diziam filhos (não todos), sobrinhos e netos, quando comparavam a história contada por aqueles tijolos à soma que veriam acrescida às suas contas bancárias.

E eles, certos de que seria o melhor para todos, disseram ao curador que chegasse às três.

Antes de sair, ela pediu para pegar a boneca chinesa que ficava no corredor.

E na sala, contrariado, o cuco cantou.

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