28 de abr de 2008

:: Termo ::

Não sabiam dizer quando foi que aconteceu, e nem poderiam, claro, ou não teriam chegado até aqui, mas era onde estavam, e é isso o que era: já não sabiam mais falar. Quer dizer, saber, sabiam, mas já não bastava, porque não era só uma questão de abrir a boca e deixar as palavras saírem, mas de fazer que chegassem ao outro e que, afinal, significassem alguma coisa.

E já não chegavam. Não alcançavam.

Todos, claro, eram educados e polidos e haviam lido muito e muitos, e citavam seus autores prediletos como se falassem das próprias idéias, mas quais seriam essas, de fato, não tinham a menor suspeita, e nem ao menos se preocupavam com isso porque havia outras coisas mais preocupantes no momento, ou era o que achavam, pelo menos.

Quem apontou a questão foi um fulano cujo nome não importa porque a ninguém importou o que ele disse, mas que foi isso: que nada mais tem significado. A reação que se ouviu foi "quem?", "hein?" e uma infinidade de "o quês?", e então ele tentou explicar, mas é claro que não foi entendido: "todo mundo diz que me ama." Pensaram que era um convencido, mas ele disse que não foi isso o que quis dizer, e que, afinal, terem entendido outra coisa era justamente o ponto.

Todos deram de ombros e foram ver TV, porque era a estréia daquele programa que parecia ótimo.

Mas era isso: falavam de amor como quem fala do peito de frango que estava um pouco ressecado no almoço do último domingo, ou de saudade como quem fala da unha do dedinho do pé que saiu quase inteira naquela topada no batente da porta.

Nenhuma palavra mais tinha propriedade, objeto ou sentimento: era tudo uma mecanização de verbos e de dias de trabalho e de cartões de ponto e de hora de almoço e de sexo casual e de comida pronta.

Ele tentou explicar ainda mais uma vez, quando estavam à mesa do bar. Mas pediram silêncio, porque a TV estava ligada e o programa que estreara dias antes era mesmo ótimo.
...

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