5 de mai de 2008

:: 24h ::

A bancada de frios ocupa toda a parede da direita, emendando nos fundos com uma série de geladeiras que oferecem todo tipo de iguaria semipronta: lasanhas (13min), sanduíches (3min) e até alguns tipos de sopa (em geral, 5min) para aqueles que sentem falta de um ar caseiro em suas próprias casas. Quase todo o espaço restante é ocupado por uma infinidade de marcas de cerveja, de bebidas misturadas e de energéticos mirabolantes.

Antes, o cômodo não seguia até o final. Na altura onde agora estão à venda peitudos perus, havia uma parede e uma porta de correr, a única que vira em qualquer lugar na época, alvo de muita curiosidade de alguns dos amigos. "Parece coisa de filme", um deles disse certa vez, impressionado que estava com alguma aventura intergalática que acabara de assistir.

Em frente à essa bancada, prateleiras acomodam uma coleção de antiácidos, ironicamente dispostos à altura dos olhos, e algumas escovas de dentes e cremes dentais, mas apenas um tipo de enxaguante bucal, provavelmente colocado ali por um dono de loja contrariado, forçado a oferecer de tudo. E uma quantidade incrível de camisinhas, de todas as cores, formatos e sabores, em um andar logo acima dos testes rápidos de gravidez. Havia fraldas também. E lenços. E shampoos e desodorantes e sabonetes pequenos, acomodados em necessaries
que, se compradas, davam gratuitamente ao seu novo proprietário 50ml de um perfume de fragrância semelhante à dos desodorizantes de banheiro.

(Havia desses ali, também.)

Essa bancada, pensou, estaria encostada à parede da sala íntima, perto da estátua de Zeus que seu pai, num impulso, comprara, e que jamais encontrou simpatia nos olhos da mãe. Mas, bem-humorada, brincava: "Que fique aí. Eu é que não quero a ira do Olimpo caindo sobre mim!"

A lembrança o fez sorrir, para profunda estranheza do rapaz que, encostado atrás do balcão e devidamente uniformizado, deixava escapar um olhar da sua revista em quadrinhos para aquele esboço de andarilho que resolveu entrar na loja no meio da madrugada.

Olhou o relógio. Eram 3h42.

Ele, o andarilho, caminhou com passos lentos para o meio do estabelecimento. Por um instante, encarou o balconista, que esboçava um início de pavor. Ao seu lado, um zoológico de produtos: cheetahs alardeando salgadinhos de queijo, tigres anunciando cereais, camelos oferecendo cigarros, gatos alucinados ofertando chicletes recheados. E revistas, muitas, demais: sobre futebol e carros e mulheres e dinheiro e investimentos e internet e videogames.

Respirou fundo. À direita, um lugar fazia as vezes de adega: não mais do que vinte garrafas, acomodadas como alguém julgara elegante, coroada por um imenso provolone, deitado, inerte, em uma mesa ao lado.

Ali, um dia, esteve a escada que levava ao segundo andar. Era escura e imponente, e ele gostava de esconder-se debaixo dela. Era onde sempre o fazia, aliás, quando o pai saía a procurá-lo, mas este jurava não ter idéia de onde se enfiava o filho.

Logo acima, percebeu, uma câmera de vigilância delatava os passos de qualquer um na loja.

Ele aproximou-se da adega, e viu a pequena cortina que separa todos aqueles cifrões de algum outro ambiente. Era ali que, agora, havia uma escada. Ali, onde foi o quarto do seu irmão caçula.

No instante em que seus dedos tocaram a cortina, a voz do atendente rompeu o silêncio.

- "Posso ajudar, amigo?"

Antes de responder, deu uma última olhada cortina adentro. Nem mesmo o imenso espelho de cristal, objeto de ciúme da avó, confiado ao neto mais novo, fora mantido na parede.

A vontade era responder que sim, que poderia ajudar sim, que poderia ajudar muito.

Mas ele apenas escolheu um cigarro, despejou algumas moedas no balcão e saiu, sem dizer palavra, deixando-se engolir pela noite.
...

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