26 de mai de 2008

:: Interno ::

Graças a Deus, que inspira, e a vocês, que lêem, o Aperte conquistou o segundo lugar no Prêmio iBest. Muito obrigado.
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Não havia motivo, mas decidiram que ele era louco, porque sim, e deixaram-no como objeto de estudo acadêmico durante quase oito anos no hospital psiquiátrico do alto da colina.

Todas as quintas-feiras os estudantes entravam ali, empunhando pranchetas, canetas e arrogância, e passeavam em grupo por entre os internos, fazendo-se de profissionais diante dos gritos de uns e da nudez de outros. Disputavam oportunidades para dizer que achavam melhor o paciente tal ser tratado com aquele novo medicamento revolucionário (e assim mostravam que estavam a par das mais recentes descobertas) ou, numa piadinha, que para aquele outro talvez fosse melhor uma sessão ou duas de choque: era só para ouvir os protestos das colegas de turma e talvez receber um tapinha de condescendente reprovação, o que já seria útil na hora de, mais tarde, convidá-las para um barzinho.

- Vai ser ótimo depois de passar o dia aqui, não acha?

Elas, normalmente, achavam sim.

Como sempre, diante da cela em que ele estava (ou quarto, como preferiam chamar), havia uma pausa cerimoniosa e uma explicação em tom solene sobre o caso que presenciariam, que intrigava a medicina, já que ninguém conseguia dizer o que havia de errado. Talvez porque nada houvesse, mas isso não era de interesse acadêmico, ao que passavam logo para as questões seguintes.

Pela janelinha da porta, viam-no sentado, lendo, ou escrevendo, ou deitado olhando para o teto e ouvindo música, numa enlouquecedora sanidade. Havia, então, uma cama arrumada com lençóis brancos, uma mesinha com cadeira (não era o tipo que faria mal a si mesmo com esses objetos), pilhas de livros e de folhas escritas na frente e no verso.

Pedindo silêncio, o instrutor ajeitava os óculos e abria a porta. As canetas estudantis lançavam-se a devorar os cadernos.

Com um sorriso, o hóspede os recebia e contava sua vida pregressa, falava do que escrevia, do que sonhava, recitava poemas e pedia que entregassem cartas, sem saber que essas jamais cruzavam os portões. Dava conselhos ignorados, elogiava a beleza das meninas e convidava para ouvirem, juntos, Casta Diva
, na voz de Maria Callas. Já não disfarçava suas lágrimas, conquistava as das alunas e incomodava os alunos, convencidos que estavam de que era tudo um melodrama com casos semelhantes fartamente documentados na literatura psiquiátrica, faça-me o favor.

(Talvez devessem aumentar-lhe a medicação, concluiu, alguém, de imediato.)

E fechavam a porta e desciam a colina nos carros que ganharam ao passar no vestibular, rumo ao trânsito e às grades curriculares da faculdade e ao horário de almoço e ao seminário no mês de férias e à declaração do imposto de renda.

Antes, talvez, o tal barzinho, para conversar sobre o dia que, vejam só, já se foi.

Assim, esgotados e bêbados, celebravam sua normalidade usando o débito automático.


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