12 de mai de 2008

:: Tijolos ::

A casa ficava na margem do tempo.

Era quase toda feita em madeira, e tentavam há tempos decidir de qual. Não concluíam nada, pois quando haviam de bater o martelo, a casa, numa troça, parecia mudar uma porta ou janela por vontade própria, lançando de volta os especialistas às suas pranchetas.

Até que desistiram e resolveram ser corretores.

Tinha dois andares e mais um sótão, cuja entrada desaparecia sob o emaranhado de teias e de indiferença que o manteve inacessível durante tantos anos quanto alguém poderia lembrar. O porão era guarida de todo tipo de criatura fantástica, segundo as crianças da vizinhança, que mediam a coragem umas das outras pela quantidade de passos que davam em direção à casa.

Eram elas que viam ali tudo o que não havia para ser visto: pessoas aparecendo nas janelas mais altas, ou alguma coisa que insistia em se esconder no exato instante em que um olhar a alcançaria. No pequeno jardim que sabiam existir, ainda que faltasse ousadia para conferir, houve dias em que um sátiro de pedra urinava sem parar na fonte d'água; mas agora permanecia em silenciosa vigia, enegrecido e decapitado por algum evento do qual nunca se teve notícia.

Eu passava em frente à casa todos os dias por volta das cinco e meia, quando voltava do colégio, a pé. Ela parecia atrair o olhar, como uma coisa proibida, e desde que me conhecia por gente nunca ninguém tinha morado ali. Também não a derrubavam porque todas as pessoas que um dia tiveram essa idéia acabaram mortas ou internadas em manicômios, segundo os antigos moradores da rua, que inventavam outras tantas histórias para evitar, inclusive, que os rebentos saíssem de casa tarde da noite. Assim, ela continuava em pé, enterrando gerações inteiras, em sua imutável posição no alto da rua.

Lembro das madrugadas insones, principalmente as de chuva, quando a água parecia compor algum tipo de música sombria ao bater no telhado. Sentia-me transportado imediatamente para o portão enferrujado da casa, que ostentava seis voltas de uma pesada corrente com cadeado. Aquela onde eu morava não ficava a uma distância confortável o suficiente, e por mais que me apavorasse, arriscava uma olhadela pela janela redonda, semelhante a uma escotilha, que ficava em meu quarto. Como que esperando por mim, um relâmpago enfim estalava, e mostrava num flash azul a horda que eu jurava dividir espaço com aquela construção proibida.

Nas manhãs seguintes, minhas olheiras denunciavam o sono perdido.

Não sei dizer em que momento a casa deixou de acompanhar minha insônia e meus pesadelos. Talvez tenha sido pelos 18 anos, quando a maturidade nos pega despreparados, e de uma vez só todos os personagens que nos fascinavam pareciam bater o ponto e incumbir-se de novas crianças. Mudei para uma cidade em outro estado, e não voltei mais à rua da minha infância durante muito tempo. Até que um inventário enfim me levou de volta.

Cheguei no meio de uma tarde seca de terça-feira, de trem, e por mais familiar que me fosse todo o cenário, sentia-me deslocado. Era como se o tempo, parado, esperasse por mim. Flagrei-me com uma saudade imensa da minha janela de escotilha, e dos raios azuis apavorantes. E, também, da casa que me assombrou.

Avancei pela rua, ansioso por me apavorar uma vez mais com a madeira que recusava-se a apodrecer, com o telhado que negava-se a ruir e com os mistérios do sótão jamais aberto. Mas alguém, enfim, havia derrotado as histórias, os monstros, as criaturas. Qualquer criança já podia sair despreocupada à noite, e sua prova de bravura, agora, era atravessar sozinha algumas fases de Silent Hill. A casa já não estava lá. Para muitos jamais estivera: havia coisas melhores com que ocupar as lembranças.

Senti demolida uma parte da minha infância. E a loja de ferragens que agora ocupava o alto da rua me parecia muito mais apavorante do que a casa jamais fora.

...

Nenhum comentário: