19 de mai de 2008

:: Trinco ::

Disse que nunca mais sairia do quarto, e como não o haviam levado a sério, a mãe agora esmurrava a porta há dez minutos, dois anos depois.

- Mas menino, me deixa limpar! - Gritava como a ninguém, usando o primeiro argumento que lhe viera à cabeça.

Sabiam, claro, que alguma hora tinha que ter saído, ainda que não o tivessem visto, ou o cheiro decerto já teria posto todos pra fora. Sabiam que comia, ainda que não soubessem o que, e que ele estava mesmo lá, porque volta e meia ouviam um grito de euforia ou um gemido de desespero no meio da noite. E também porque, de um dia para o outro, depois de mais uma dessas crises de esmurraçamento de porta da mãe, aparecera um papel gritando "não perturbe" dependurado na maçaneta, com a tinta vermelha ainda brilhando de recém-saída da impressora, e ostentando um Smiley com cara de poucos amigos logo abaixo.

Para os vizinhos, disseram que ele viajara para um intercâmbio de um ano, e que não havia se despedido de ninguém porque a tristeza seria muita, mas como agora já se iam dois, completaram a mentira dizendo que o rapaz gostou tanto da Austrália que resolveu ficar por lá até quando desse.

- Ele é assim, um aventureiro impetuoso.

A porta fechada já nem era mistério, porque há tempos não recebiam ninguém em casa por pura vergonha de inventar desculpas, e se os amigos insistiam que queriam vê-los, preferiam pagar a conta no restaurante a ouvir o interfone tocar.

No mais, era pouca a diferença de quando nada disso acontecia, já que todos saíam e voltavam quando os outros ainda dormiam ou já tinham voltado para a cama. Nos finais de semana, talvez acontecesse um constrangido almoço de domingo, quando tentavam conversar sobre o que quer que fosse, mas logo procuravam refúgio ou no futebol, ou na política ou naquele caso escabroso que comoveu a opinião pública.

Eram tempos modernos, como costumavam dizer uns aos outros quando vinha alguma espécie de peso na consciência ou de saudade ou ainda uma sensação de que alguns valores, talvez, estivessem invertidos. Mas o que se podia fazer, não é?

Até que, um dia, no computador do cômodo ao lado, o pai recebeu um e-mail dele, o filho, avisando que mudara de idéia e que naquela noite sairia do quarto, mas que não queria nenhum tipo de reação esquisita ou qualquer coisa assim.

Ficaram uns olhando para a cara dos outros, sem saber o que fazer ou o que pensar, e quase desejando que o rapaz mudasse de idéia outra vez e se trancasse por mais um mês ou dois até que estivessem mais preparados.

Mas, como não se podia evitar, a noite chegou, e ouviram a chave girar na porta, e a maçaneta mexer-se e as dobradiças dobrarem, e chegaram a achar que saía fumaça do quarto como que antecipando uma aparição apoteótica, e enfim estava lá o garoto de pé no corredor.

- Oi.

Ele estava bastante bem e bastante bem vestido e aparentando saúde bastante boa e tinha os cabelos inexplicavelmente bem cortados e, enfim, estava bastante bem.

Abraçaram-se, e alguém arriscou dizer "bem-vindo", o que era estranho já que ele nunca tinha saído, e foram para a sala e não sabiam bem como deveriam se olhar ou falar ou estar perto uns dos outros.

Resolveram sentar-se à mesa, e sentaram, e comeram. Ficaram, então, por um momento, satisfeitos por verem que aqueles anos de silêncio e esquisitice não fizeram, afinal, diferença alguma na vida deles.

No momento seguinte, pelo mesmo motivo, ficaram angustiados.

Foi assim que enfim se olharam nos olhos e que enfim se enxergaram.

O destino, irônico, lhes trouxe mais uma vez o silêncio; mas, agora, carregado de palavras.

E num sorriso sem-graça e cúmplice, veio-lhes a certeza de que ainda era tempo.

...

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