30 de jun de 2008

:: Ido ::

Ela sai agora.
Sai porta afora, agora.
Não olha pra trás, para o que ficou pra trás.
Passa e sai.
E já saiu, agora.
Desceu as escadas.
Passou da porta, vai porta afora.
Porta afora, agora.
Deixou a casa pra trás, a casa e a porta.
Viu o mundo à frente.
Saiu afora, agora.
Ela sai agora.
Não olha pra trás, agora.
Reviu, viveu, meneou a cabeça.
Meneou a cabeça e saiu, agora.
Refez o caminho, refez todo o caminho.
Repensou, refez, viveu o caminho.
Tirou os sapatos, os pés dos sapatos.
E foi à calçada, a calçada dos fatos.
Pela porta da rua ela sai.
Sai para a rua, agora.
Porta afora, agora.
E vê a cor e o sol e o dia.
O dia que faz agora.
Que ela faz, agora.
E caminha sozinha.
Está sozinha agora.
Dos anos que vêm, se vêm, que venham.
Venham todos, agora.
Eis que ela sai.
Sai porta afora.
Enfim, porta afora, agora.
E quer os anos de volta.
Quer todos de volta agora.
Os que não teve, os que queria.
Requer todos, agora.
Eu a vejo de longe.
De ainda mais longe, agora.
Eu a chamo, mas não me ouve.
Já não me ouve agora.
Parto resoluto em soluço.
E no soluço, vou-me embora.
Vou-me embora, agora.

...


23 de jun de 2008

:: Catatonia ::

Eu recomeço, eis-me aqui de novo
Meu despautério, mas sua esta idéia
É o canto morto dessa tal sereia
Que lhe orna a face, o rosto de Medéia

Repasso o passo: mais um dia cinza
E guardo a voz num roto relicário
Ainda que não seja mais tão minha
Será meu tanto, neste campanário

O riso tolo em qualquer instância
Refaz o som de sua voz mais séria
Eu perco tempo, vislumbro da janela
De trás do corpo, desta vil pilhéria

Não vejo cores, tenho ouvidos moucos
E a pele morna não responde ao toque
Eu fecho a porta, tranco o sonho louco
E já não espero mais sua resposta


...



16 de jun de 2008

:: Toscana ::

Ele se orgulhava do seu pesto, que de fato era de se orgulhar, e por isso sempre mantinha o mistério quando, todo quarto domingo do mês, punha-se cozinha adentro para sua alquimia. Ainda que tenha envelhecido junto com meu avô, fazendo da relação empregado-patrão algo há muito esquecido, ainda chamavam-se de "senhor" e de "rapaz", por já não saberem mais como chamar um ao outro, e punham-nos todos a rir, usando desses tratamentos, quando discutiam durante as infindáveis partidas de xadrez.

Assim, meu avô respeitava os domínios do seu amigo-empregado, e sua soberania diante das caçarolas e do fogão à lenha - que ele considerava indispensável.

Logo pela manhã, então, ia o alquimista à feira para buscas nozes e manjericão e pecorino (que fazia questão de ralar), cada um de um mesmo lugar de sempre, e nem sob tortura ameaçava revelar que técnica desenvolvera para conseguir ele mesmo produzir o azeite que dizia ser a alma da sua criação, "como todo azeite é alma de toda a culinária", conforme repetia, enquanto passava os pedaços de ciabatta pelo molho que restava no prato.

Ao meu avô, cabia a escolha do vinho. Éramos muitos nessas tardes domingueiras, gastávamos uns bons litros, e à tardinha todos já riam de qualquer piada e tornavam-se ainda mais faladores e barulhentos do que nos lembrávamos. Muitas das mulheres reclamavam de alguma inconveniência, ao mesmo tempo em que se divertiam lembrando daquelas de quatro domingos atrás.

Era nessa hora que alguém começava a relembrar, também, as passagens da infância de cada um de nós, mais novos, para nosso total contrangimento: estávamos na idade em que as primas começam a parecer, digamos, diferentes, e quando queremos que também elas nos vejam assim; mas ainda usávamos calças curtas, e nosso limitado repertório de flerte nos dava pouco ou nenhum raio de ação.

(Ainda hoje permaneço convicto na idéia de que só as garotas amadurecem, enquanto os meninos limitam-se a crescer e envelhecer.)

A imensa mesa de madeira era colocada no quintal e coberta por uma toalha tão antiga quanto a história da família. De certa forma todos já sabiam o que fazer: logo estavam presos os cães e preparada a lona para uma eventual chuva súbita, coisa que não raro acontecia ali; os quartos devidamente arrumados esperavam por seus cantores ébrios: naquele dia ninguém pegaria a estrada, mesmo porque o rancho ficava tão isolado que qualquer problema no caminho para a cidade acabaria tendo de esperar a manhã seguinte, ou ainda a outra, para encontrar solução.

O sol ali era sempre o sol de um verão à tarde, a qualquer hora do dia. O campo parecia sempre dourado, a brisa sempre leve: em seus ventos, carregava partículas que brilhavam como purpurina. Em algum momento, parece ter surgido a convenção de que ninguém deveria usar qualquer cor escura nesses dias: todos vestíamos branco, ou bege - sabendo que bege abrange uma infinidade de outras cores - ou azul ou amarelo ou verde, ou ainda o multicolorido avental que o "rapaz" acabava por ostentar quando, saindo da cozinha, trazia a travessa: o cheiro da maravilhosa pasta verde que batera no liquidificador já viera à sua frente, anunciando-o.

Havia aplausos quando ele chegava.

Sentava-se ao lado do meu avô, que ficava na cabeceira.

Fazia questão de servir um a um.

Não havia pressa, porque havia apetite e havia histórias. Porque havia vinho, e pessoas. Porque havia a cassata de frutas vermelhas, que desde a antevéspera descansava na geladeira, e que desaparecia como se nunca houvesse existido, por maior que renascesse a cada novo encontro.

Ficavam uns pela mesa, outros caminhavam um pouco para ver como estava o rancho e assim sugerir melhorias. As crianças - nós - corriam descalças ou revezavam-se na bicicleta, ou brincavam com os cães, ou ainda com a enorme tina de água que, um pouco mais à frente, perto dos silos, as convidava.

E, inevitavelmente, sempre mais cedo do que devia, o sol se punha.

Era mais um fim de tarde, de mais um quarto domingo, de um ano perdido na memória.
...

9 de jun de 2008

:: Sexta ::

Ele já havia separado a roupa e comprado o vinho, branco, que sabia ser o único que ela poderia beber por causa do tratamento para clarear os dentes, e feito uma salada e separado os peixes e secado bem a faca com a qual cortaria os sashimi de forma planejadamente casual, para tentar ver em seus olhos alguma reação e conquistar uma eventual exclamação, à qual reagiria timidamente.

A mesa onde jantariam era pequena, redonda, e não havia outras cadeiras a não ser as de armar, mas organizou tudo de maneira que toda a sala parecia ter sido planejada, centímetro a centímetro, para aquela noite. E, ora essa, talvez tivesse sido mesmo, pensou ele deixando escapar um leve sorriso.

Na banca de jornais em frente à sua casa comprou incenso de morango e champagne - que nem sabia existir, mas que parecia perfeito - e desde a tarde, quando percebeu que o aroma que deixava no ar era agradável e não enjoativo como temia, acendia os pauzinhos incansavelmente. Comprara, também, velas de diversas cores, formatos e tamanhos, espalhando-as pelo ambiente, e deixou os fósforos bem à vista para acender cada uma no momento em que ouvisse o interfone tocar. Lamentava não estar frio o suficiente para acender a lareira, mas, pelo sim pelo não, deixou alguma lenha ao lado dela. Claro, já escolhera as músicas, e mesmo algumas que dificilmente chegariam a sair pelos alto-falantes; mas, enfim, preferia estar prevenido se fosse o caso. O banheiro brilhava como nunca, a cama aquecia-se com o edredom e todos os ambientes espreitavam à meia-luz.

Ela disse que ligaria quando estivesse saindo de casa. Seria a deixa dele para seu banho, para perfumar-se e esperar. Talvez tomasse um drink para ajudar a diminuir a tensão.

Lembrou que talvez fosse melhor abrir o vinho, para respirar.

Uma última volta pela casa, uma última checada em tudo.
Perfeito.

Tentou distrair-se um pouco vendo a TV. Não conseguiu. Não havia como concentrar-se em nada. Nenhuma palavra rompia a muralha imposta pela imagem única que ocupava todos os seus sentidos.

Foi quando o telefone, enfim, tocou.

Sem muitas explicações, ela disse que não iria mais.

Sentado como estava, ele permaneceu por longos minutos.
Uma eternidade depois, pensou em quantas vezes ainda seria assim.

E então apercebeu-se de que nem ao menos gostava de vinho branco.

...


2 de jun de 2008

:: Hopper ::

Eram duas e meia da manhã. Talvez três. Não sei ao certo. Não podia mais continuar ali. O cheiro de mofo fazia arder as narinas, e o sexo ruidoso do casal no quarto ao lado roubava-me toda a atenção que tentava dar a Rebecca, que começara, talvez, vinte minutos antes, na TV que estalava reclamando do frio. O chuveiro deixava cair gotas a cada exatos dois segundos, e seria capaz de jurar que o fazia de propósito. A cortina poída, feita do que um dia foi um bom veludo (de quando um dia foi este um bom hotel) já não era sequer capaz de bloquear inteiramente a luz do letreiro de neon, que anunciava incansável o nome do lugar, ou som que dele saía, alardeando a ausência de uma das suas letras.

As manchas no carpete confundiam-se com a cor, talvez verde, que ele tivera em outros tempos. Todo o quarto ostentava sua morrinha de cigarro e bebida barata, e o papel de parede descolando por causa da infiltração parecia avisar que o lugar, a qualquer momento, poderia entrar em colapso.

Eu estava à beira do colapso.

Desci as escadas apressado, colocando um sobretudo que ganhara numa aposta, a fim de respirar um pouco do ar da noite. A chuva que parecia querer lavar a cidade do mapa enfim dera trégua.

O imenso saguão exibe parcas amostras da glória que um dia teve, como o fazem as velhas divas de teatro, que ainda se vestem como quando subiriam ao palco, e põem-se a ruminar conhaque e gim. Havia algumas delas ali. O lounge conservava o enorme e anacrônico lustre de cristal e as estatuetas de divindidades menores em mármore. Já não havia tantos móveis, mas estava lá um sofá vermelho e uma poltrona: nela, a qualquer hora do dia ou da noite, o velho sem nome fumava seu oloroso cachimbo.

Havia, também, muitos que alugavam quartos por hora. E que pagavam a mais por aqueles onde o chuveiro funcionava, ainda que pingando a intervalos de dois segundos.

Saí porta afora por aquele pedaço de cidade esquecida, do tipo por onde os taxistas não gostam de passar e onde jamais pegam passageiros. Num cenário como este, há sempre o som de sirenes distantes e de latões de lixo virando, tudo para não deixar sem seus clichês os escritores de novelas noir.

Era apenas do ar da noite que eu precisava.

O único bar da rua jamais fechava, ainda que pouco ou nada tivesse mudado desde os anos cinqüenta. Era para hambúrguer e café e para a música do jukebox que ainda insistia em funcionar. E estava a TV ligada na mesma Rebecca
que eu deixara no quarto.

Não era ali que eu devia estar. O telefone na parede deixava claro. Bastavam algumas moedas e alguma coragem. Prometi que ligaria se em meu troco viesse o valor exato da ligação: eu já sabia quanto custaria um minuto. E o quanto esse minuto me custaria também.


Paguei.
Veio.

Eram 3h45.
Suspirei, sabendo que já era mesmo muito tarde para continuar fugindo de mim.


...