2 de jun de 2008

:: Hopper ::

Eram duas e meia da manhã. Talvez três. Não sei ao certo. Não podia mais continuar ali. O cheiro de mofo fazia arder as narinas, e o sexo ruidoso do casal no quarto ao lado roubava-me toda a atenção que tentava dar a Rebecca, que começara, talvez, vinte minutos antes, na TV que estalava reclamando do frio. O chuveiro deixava cair gotas a cada exatos dois segundos, e seria capaz de jurar que o fazia de propósito. A cortina poída, feita do que um dia foi um bom veludo (de quando um dia foi este um bom hotel) já não era sequer capaz de bloquear inteiramente a luz do letreiro de neon, que anunciava incansável o nome do lugar, ou som que dele saía, alardeando a ausência de uma das suas letras.

As manchas no carpete confundiam-se com a cor, talvez verde, que ele tivera em outros tempos. Todo o quarto ostentava sua morrinha de cigarro e bebida barata, e o papel de parede descolando por causa da infiltração parecia avisar que o lugar, a qualquer momento, poderia entrar em colapso.

Eu estava à beira do colapso.

Desci as escadas apressado, colocando um sobretudo que ganhara numa aposta, a fim de respirar um pouco do ar da noite. A chuva que parecia querer lavar a cidade do mapa enfim dera trégua.

O imenso saguão exibe parcas amostras da glória que um dia teve, como o fazem as velhas divas de teatro, que ainda se vestem como quando subiriam ao palco, e põem-se a ruminar conhaque e gim. Havia algumas delas ali. O lounge conservava o enorme e anacrônico lustre de cristal e as estatuetas de divindidades menores em mármore. Já não havia tantos móveis, mas estava lá um sofá vermelho e uma poltrona: nela, a qualquer hora do dia ou da noite, o velho sem nome fumava seu oloroso cachimbo.

Havia, também, muitos que alugavam quartos por hora. E que pagavam a mais por aqueles onde o chuveiro funcionava, ainda que pingando a intervalos de dois segundos.

Saí porta afora por aquele pedaço de cidade esquecida, do tipo por onde os taxistas não gostam de passar e onde jamais pegam passageiros. Num cenário como este, há sempre o som de sirenes distantes e de latões de lixo virando, tudo para não deixar sem seus clichês os escritores de novelas noir.

Era apenas do ar da noite que eu precisava.

O único bar da rua jamais fechava, ainda que pouco ou nada tivesse mudado desde os anos cinqüenta. Era para hambúrguer e café e para a música do jukebox que ainda insistia em funcionar. E estava a TV ligada na mesma Rebecca
que eu deixara no quarto.

Não era ali que eu devia estar. O telefone na parede deixava claro. Bastavam algumas moedas e alguma coragem. Prometi que ligaria se em meu troco viesse o valor exato da ligação: eu já sabia quanto custaria um minuto. E o quanto esse minuto me custaria também.


Paguei.
Veio.

Eram 3h45.
Suspirei, sabendo que já era mesmo muito tarde para continuar fugindo de mim.


...

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