9 de jun de 2008

:: Sexta ::

Ele já havia separado a roupa e comprado o vinho, branco, que sabia ser o único que ela poderia beber por causa do tratamento para clarear os dentes, e feito uma salada e separado os peixes e secado bem a faca com a qual cortaria os sashimi de forma planejadamente casual, para tentar ver em seus olhos alguma reação e conquistar uma eventual exclamação, à qual reagiria timidamente.

A mesa onde jantariam era pequena, redonda, e não havia outras cadeiras a não ser as de armar, mas organizou tudo de maneira que toda a sala parecia ter sido planejada, centímetro a centímetro, para aquela noite. E, ora essa, talvez tivesse sido mesmo, pensou ele deixando escapar um leve sorriso.

Na banca de jornais em frente à sua casa comprou incenso de morango e champagne - que nem sabia existir, mas que parecia perfeito - e desde a tarde, quando percebeu que o aroma que deixava no ar era agradável e não enjoativo como temia, acendia os pauzinhos incansavelmente. Comprara, também, velas de diversas cores, formatos e tamanhos, espalhando-as pelo ambiente, e deixou os fósforos bem à vista para acender cada uma no momento em que ouvisse o interfone tocar. Lamentava não estar frio o suficiente para acender a lareira, mas, pelo sim pelo não, deixou alguma lenha ao lado dela. Claro, já escolhera as músicas, e mesmo algumas que dificilmente chegariam a sair pelos alto-falantes; mas, enfim, preferia estar prevenido se fosse o caso. O banheiro brilhava como nunca, a cama aquecia-se com o edredom e todos os ambientes espreitavam à meia-luz.

Ela disse que ligaria quando estivesse saindo de casa. Seria a deixa dele para seu banho, para perfumar-se e esperar. Talvez tomasse um drink para ajudar a diminuir a tensão.

Lembrou que talvez fosse melhor abrir o vinho, para respirar.

Uma última volta pela casa, uma última checada em tudo.
Perfeito.

Tentou distrair-se um pouco vendo a TV. Não conseguiu. Não havia como concentrar-se em nada. Nenhuma palavra rompia a muralha imposta pela imagem única que ocupava todos os seus sentidos.

Foi quando o telefone, enfim, tocou.

Sem muitas explicações, ela disse que não iria mais.

Sentado como estava, ele permaneceu por longos minutos.
Uma eternidade depois, pensou em quantas vezes ainda seria assim.

E então apercebeu-se de que nem ao menos gostava de vinho branco.

...


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