16 de jun de 2008

:: Toscana ::

Ele se orgulhava do seu pesto, que de fato era de se orgulhar, e por isso sempre mantinha o mistério quando, todo quarto domingo do mês, punha-se cozinha adentro para sua alquimia. Ainda que tenha envelhecido junto com meu avô, fazendo da relação empregado-patrão algo há muito esquecido, ainda chamavam-se de "senhor" e de "rapaz", por já não saberem mais como chamar um ao outro, e punham-nos todos a rir, usando desses tratamentos, quando discutiam durante as infindáveis partidas de xadrez.

Assim, meu avô respeitava os domínios do seu amigo-empregado, e sua soberania diante das caçarolas e do fogão à lenha - que ele considerava indispensável.

Logo pela manhã, então, ia o alquimista à feira para buscas nozes e manjericão e pecorino (que fazia questão de ralar), cada um de um mesmo lugar de sempre, e nem sob tortura ameaçava revelar que técnica desenvolvera para conseguir ele mesmo produzir o azeite que dizia ser a alma da sua criação, "como todo azeite é alma de toda a culinária", conforme repetia, enquanto passava os pedaços de ciabatta pelo molho que restava no prato.

Ao meu avô, cabia a escolha do vinho. Éramos muitos nessas tardes domingueiras, gastávamos uns bons litros, e à tardinha todos já riam de qualquer piada e tornavam-se ainda mais faladores e barulhentos do que nos lembrávamos. Muitas das mulheres reclamavam de alguma inconveniência, ao mesmo tempo em que se divertiam lembrando daquelas de quatro domingos atrás.

Era nessa hora que alguém começava a relembrar, também, as passagens da infância de cada um de nós, mais novos, para nosso total contrangimento: estávamos na idade em que as primas começam a parecer, digamos, diferentes, e quando queremos que também elas nos vejam assim; mas ainda usávamos calças curtas, e nosso limitado repertório de flerte nos dava pouco ou nenhum raio de ação.

(Ainda hoje permaneço convicto na idéia de que só as garotas amadurecem, enquanto os meninos limitam-se a crescer e envelhecer.)

A imensa mesa de madeira era colocada no quintal e coberta por uma toalha tão antiga quanto a história da família. De certa forma todos já sabiam o que fazer: logo estavam presos os cães e preparada a lona para uma eventual chuva súbita, coisa que não raro acontecia ali; os quartos devidamente arrumados esperavam por seus cantores ébrios: naquele dia ninguém pegaria a estrada, mesmo porque o rancho ficava tão isolado que qualquer problema no caminho para a cidade acabaria tendo de esperar a manhã seguinte, ou ainda a outra, para encontrar solução.

O sol ali era sempre o sol de um verão à tarde, a qualquer hora do dia. O campo parecia sempre dourado, a brisa sempre leve: em seus ventos, carregava partículas que brilhavam como purpurina. Em algum momento, parece ter surgido a convenção de que ninguém deveria usar qualquer cor escura nesses dias: todos vestíamos branco, ou bege - sabendo que bege abrange uma infinidade de outras cores - ou azul ou amarelo ou verde, ou ainda o multicolorido avental que o "rapaz" acabava por ostentar quando, saindo da cozinha, trazia a travessa: o cheiro da maravilhosa pasta verde que batera no liquidificador já viera à sua frente, anunciando-o.

Havia aplausos quando ele chegava.

Sentava-se ao lado do meu avô, que ficava na cabeceira.

Fazia questão de servir um a um.

Não havia pressa, porque havia apetite e havia histórias. Porque havia vinho, e pessoas. Porque havia a cassata de frutas vermelhas, que desde a antevéspera descansava na geladeira, e que desaparecia como se nunca houvesse existido, por maior que renascesse a cada novo encontro.

Ficavam uns pela mesa, outros caminhavam um pouco para ver como estava o rancho e assim sugerir melhorias. As crianças - nós - corriam descalças ou revezavam-se na bicicleta, ou brincavam com os cães, ou ainda com a enorme tina de água que, um pouco mais à frente, perto dos silos, as convidava.

E, inevitavelmente, sempre mais cedo do que devia, o sol se punha.

Era mais um fim de tarde, de mais um quarto domingo, de um ano perdido na memória.
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