28 de jul de 2008

:: Agenda ::

20h - Shut down.

20h20 - Barcas.
Conferindo o celular: nenhuma ligação. (É uma sexta.)

21h40 - 53 (Centro - Sta Rosa)

22h - Dez minutos, talvez, escolhendo o vinho.
Ainda nenhuma ligação.
Talvez estejam esperando: sabem que só chega mais tarde.

22h20 - Banho, enquanto pensa nas opções. Talvez haja alguém em São Francisco. Sempre há alguém em São Francisco. Às vezes, até alguém com quem sair de lá.

23h - Nada de novo na TV: reprises de sextas-feiras.
Nada de novo, também, no celular.

23h30 - Abrir o vinho, talvez alugar um dvd enquanto a locadora ainda está aberta. (Ele odeia ser visto na locadora nas sextas-feiras à noite.) Uma taça.
À locadora.

0h - Pensa em ver se há alguém no msn.
(Ele odeia ser visto online no msn nas sextas-feiras à noite.)

Não há novos scraps. Ninguém deixa scrap em horário de noitada.
(Em geral, recebe uns tantos por volta das 04h ou 05h, de amigos perguntando por onde ele andava e dizendo que acabaram de chegar da Nuth ou da Noites Cariocas ou do Cachaça Cinema Clube ou de seja de onde for e que estava péssimo, ótimo e mais ou menos. Às vezes ele esperava algo como meia-hora e respondia que acabara de chegar de algum lugar. Acontecia, nessas horas, de algumas bandeirinhas do msn anunciarem que havia, enfim, amigos online

0h45 - A vontade de conhecer comunidades novas ou de assistir a filmes no Youtube ou de passear pelas bizarrices da internet desaparece por completo. Hora de ver o dvd.

02h54 - De volta à internet. Ainda ninguém online. Um scrap: "tentei falar contigo, seu telefone deu desligado! Tava no Bukowski, irado! A gente se fala! [ ]s!"

03h21 - Última taça. A garrafa está seca. Mais nenhuma paciência para a internet. Sono de vinho, sono de tédio, ainda mais um scrap.

03h30 - Ajusta a TV para desligar em 30 minutos. Todos os programas, agora, parecem ter a mesma textura e falar na mesma linguagem incompreensível. Pela janela do quarto, vê outros tantos com luzes ainda acesas. Poderia jurar ser capaz de ouvir dedos devorando teclados. (Ele odeia que vejam a luz do seu quarto acesa nas sextas-feiras à noite.)

O último gole.

04h - Off.

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16 de jul de 2008

:: Alva ::

Todas as manhãs, eram alguns litros de café forte.

(E em apenas uma das jarras, levemente mais fraco).

Ela chegava por volta das 4h30, depois de dormir algumas horas no trailer ao lado. As primeiras horas da madrugada ficavam por conta do marido, que deixava o balcão quando ela chegava, para seguir para suas horas de sono até o início do seu dia, em geral em torno das 10h. Muito poucos percebiam quando saía um e entrava outro. Em parte porque a madrugada não era mesmo o período mais movimentado, em parte porque eles usavam a entrada de serviço e em parte, a maior, porque pouco importava quem servisse o café, desde que estivesse quente. E sempre estava.

Antes de sair, o marido dizia quem estava lá (em sua maioria, as mesmas pessoas de todas as noites) e o que estavam pedindo. Dizia quem não queria ser incomodado, dizia quem não queria ver a caneca vazia, dizia quem chorava as mágoas (e quais eram). Disse que ainda havia ovos e que, por isso, podia dispensar o granjeiro que passava, incansável, todas as manhãs, e quais as mesas que precisavam ter enchidos seus jarros de mel (panquecas são a especialidade da casa). Abria os pacotes dos maços de cigarros que estavam acabando, conferia se a geladeira precisava de mais refrigerantes ou de cerveja, completava as cumbucas sobre o balcão com amendoins e esvaziava o cofre da jukebox. Despedia-se e parava para um outro afazer qualquer, e quando finalmente deixava o Café, a mulher já estava ocupada há bons trinta minutos.
Um último beijo enquanto ela coloca o avental.

Às 5h30, a cidade preguiçosa começa a enviar seus madrugadores. Chegam junto com algumas das garçonetes, já que madrugada adentro não havia necessidade de mais do que uma pessoa para atender no lugar. Conhece quase todos pelo nome.

A cozinha já prepara, além das panquecas, torradas e tortas (o turno ali dentro mudara uma hora antes). Munidas de jarras de água e de café, de sorrisos e de "bom dias", de bloquinhos e de sugestões, as meninas circulam dominando o lugar. Geléia, chocolate, queijo, frutas e o cheiro abaunilhado de waffle e de bacon compõem o ar, cortado pelas notícias matinais disparadas pela TV e pelo farfalhar das folhas dos jornais. Pessoas populares, viajantes perdidos, caronistas ansiosos e turistas desavisados circulam todos os dias.

No canto, o aviso luminoso (que jamais fora usado), descansava: letras nunca lidas esperavam por quando, enfim, anunciariam que o lugar estava "fechado".

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14 de jul de 2008

:: Dal Segno ::

Por volta das 18h, entre a Rua do Carmo e o Largo do Machado, recolho fragmentos deixados por pessoas que encontro pelas ruas: membros de uma sociedade feita de pedaços de um espelho quebrado (há muito tempo), quando já ninguém mais olhava para ele.

A frase de um sonho, de duas garotas passando em passo apressado: “...e aí vou poder comprar aquele...” – e entraram no 2016 que, por um acaso, mantinha a porta aberta mesmo fora do ponto.

Andei mais alguns passos, esperava que o sinal na Rio Branco fechasse.

Agora, três rapazes: “...mas eu disse pra ela que não tinha nada a ver. Só que ela queria sair mesmo assim...” – o outro completou: “Claro, né, se ela quer...” O terceiro tinha o olhar perdido em algum lugar do asfalto.

O sinal abriu, atravessei. Muitos sons, muita informação, do outro lado: a oferta de cds piratas, e vendedores debatendo: “Você pegou meu cliente...” Muitos sons, muitas ofertas, o cheiro sufocante da pipoca com queijo em inúmeras barraquinhas, ônibus parando para buscar seus passageiros, o sax perdido, anacrônico, nos degraus de entrada da estação Carioca do metrô.

“Claro que vou, cara, deixa separado pra mim” – alguém gritou no celular enquanto passava ao meu lado.

Muitas histórias.

Uma breve animosidade: na fila do bilhete, a moça achou que eu entrara na sua frente. Passada a surpresa do contato visual, da palavra dirigida a mim, fiz questão de lhe dar a preferência (e eu não havia furado a fila). Minha reação apavorou-a: estava preparada para um embate, não para uma proposta de paz. Comprou, atordoada, e seguiu, comentando algo com uma amiga. Algo que não pude ouvir.

Muitas pessoas, muita pressa.

Entrei no vagão, destino Zona Sul.

Semblantes pesados, conversas por telefone, pessoas de poucas palavras.

E, em silenciosa ironia, saímos na estação que recorda, sem querer, outro machado: o de Assis.

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7 de jul de 2008

:: Gênese ::

Sempre tive certeza de que alguma tragédia ruidosa, abafada e poeirenta aconteceria perto de mim. Sempre. Por isso foi tão estranho ficar sem ação no dia em que, enfim, aconteceu.

Era meio-dia e alguma coisa (é dificil ser preciso nessas horas) de quarta-feira. Eu procurava o crachá para ir almoçar, quando os gritos vieram como ondas. Antes mesmo de pensar, todo o pessoal correu como num estouro de boiada à procura da saída, como se ir para a rua fosse a única coisa lógica a fazer. (Na verdade, talvez fosse a última.) Como já não havia luz, o instinto nos levou para as escadas, e também foi ele que fez a maioria de nós esquecer os modos civilizados e atropelar qualquer pessoa que estivesse à frente. Eu parti do sexto andar, mas os degraus até o térreo pareciam multiplicar-se a cada passo. Quando enfim saímos, o caos era completo: a escuridão anormal assustava e, como se não bastasse, uma poeira densa instalara-se no ar de tal forma que até para andar parecia preciso fazer força. Para onde quer que olhássemos, estavam pessoas caídas ou gritando, desnorteadas. Policiais tentavam dar algum tipo de orientação, mas como não sabiam qual poderia ser, repetiam, incansáveis, hipnóticos: "calma, calma!"

A frieza pela qual eu era constantemente acusado, enfim, parecia mostrar alguma utilidade.

A primeira coisa que pensei foi em tentar chegar à estação das barcas, achando que poderia estar funcionando, e atravessar a baía para casa. Muitos tiveram a mesma idéia, o que tornou impossível aproximar-se de qualquer embarcação. Os carros sobre a Perimetral pareciam abandonados, e a avenida havia transformado-se numa imensa passarela.

Resolvi seguir para ela.

Caminhava a passos largos, com o celular encostado na orelha, tentando uma ligação. Rede congestionada. Algumas pessoas pareciam não ter suportado a visão de tudo aquilo e abordavam umas as outras com perguntas sem sentido, e a mim, inclusive; mas antes que pudesse esboçar qualquer reação, já tinham partido procurando outro com quem falar.

O que eu via, então, eram homens engravatados deixando para trás seus carros importados, seus arquivos e seus laptops e seus American Express Platinum, tentando encontrar algo que fosse real em que se agarrar. Pela primeira vez em minha vida sequer cogitei a legitimidade de pegar algo que não é meu: a moto largada ao lado de uma barraquinha de lanches era um milagre que apenas o completo desespero generalizado pode ter ocultado dos olhos de todos.

Subi nela e segui pelo que chegou a me parecer o contrafluxo da multidão, mas não havia outra coisa a fazer. A escuridão e a confusão não me deixavam ter certeza de que a Ponte Rio-Niterói permanecia de pé, então a única forma de conferir seria seguindo até lá.

Acelerei, mas nem mesmo o ronco do motor e o barulho do vento superavam o som do choro de toda a cidade.

A ponte, afinal, estava inteira, e nos dois sentidos homens e mulheres andavam, corriam e, para meu horror, precipitavam-se no mar. As luzes estavam todas acesas como se fosse noite; mesmo assim, à essa distância, Niterói parecia ter sido tragada pelo mar.

Alcançar a cidade enfim me fez ter uma noção maior da extensão do que acontecera: o cenário não era diferente daquele do centro do Rio. As ruas estavam absolutamente tomadas, todos procurando algum sentido, alguma explicação, algum lugar para onde ir. Havia uma enormidade de carros batidos, água por todos os lados, e explosões perdidas aqui e ali.

Após o que pareceu uma eternidade, cheguei ao meu prédio. Subi as escadas correndo, tentando não antecipar o que poderia encontrar, e à porta senti minhas pernas fraquejarem.

Abri, apreensivo, e estavam todos lá, tão bem quanto poderiam estar. Eu era o único que, pela manhã, havia saído, e o bom senso dos que ficaram os fez imaginar que eu voltaria, quando o pânico se instalou.

Fechei a porta e enfim me permiti chorar. Percebi o quanto estava assustado, e também o quanto me aliviava ter encontrado os meus.

Como tudo vai ficar a partir de agora é impossível saber.
Mas que venham os dias. Seguiremos juntos por eles.


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