16 de jul de 2008

:: Alva ::

Todas as manhãs, eram alguns litros de café forte.

(E em apenas uma das jarras, levemente mais fraco).

Ela chegava por volta das 4h30, depois de dormir algumas horas no trailer ao lado. As primeiras horas da madrugada ficavam por conta do marido, que deixava o balcão quando ela chegava, para seguir para suas horas de sono até o início do seu dia, em geral em torno das 10h. Muito poucos percebiam quando saía um e entrava outro. Em parte porque a madrugada não era mesmo o período mais movimentado, em parte porque eles usavam a entrada de serviço e em parte, a maior, porque pouco importava quem servisse o café, desde que estivesse quente. E sempre estava.

Antes de sair, o marido dizia quem estava lá (em sua maioria, as mesmas pessoas de todas as noites) e o que estavam pedindo. Dizia quem não queria ser incomodado, dizia quem não queria ver a caneca vazia, dizia quem chorava as mágoas (e quais eram). Disse que ainda havia ovos e que, por isso, podia dispensar o granjeiro que passava, incansável, todas as manhãs, e quais as mesas que precisavam ter enchidos seus jarros de mel (panquecas são a especialidade da casa). Abria os pacotes dos maços de cigarros que estavam acabando, conferia se a geladeira precisava de mais refrigerantes ou de cerveja, completava as cumbucas sobre o balcão com amendoins e esvaziava o cofre da jukebox. Despedia-se e parava para um outro afazer qualquer, e quando finalmente deixava o Café, a mulher já estava ocupada há bons trinta minutos.
Um último beijo enquanto ela coloca o avental.

Às 5h30, a cidade preguiçosa começa a enviar seus madrugadores. Chegam junto com algumas das garçonetes, já que madrugada adentro não havia necessidade de mais do que uma pessoa para atender no lugar. Conhece quase todos pelo nome.

A cozinha já prepara, além das panquecas, torradas e tortas (o turno ali dentro mudara uma hora antes). Munidas de jarras de água e de café, de sorrisos e de "bom dias", de bloquinhos e de sugestões, as meninas circulam dominando o lugar. Geléia, chocolate, queijo, frutas e o cheiro abaunilhado de waffle e de bacon compõem o ar, cortado pelas notícias matinais disparadas pela TV e pelo farfalhar das folhas dos jornais. Pessoas populares, viajantes perdidos, caronistas ansiosos e turistas desavisados circulam todos os dias.

No canto, o aviso luminoso (que jamais fora usado), descansava: letras nunca lidas esperavam por quando, enfim, anunciariam que o lugar estava "fechado".

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