14 de jul de 2008

:: Dal Segno ::

Por volta das 18h, entre a Rua do Carmo e o Largo do Machado, recolho fragmentos deixados por pessoas que encontro pelas ruas: membros de uma sociedade feita de pedaços de um espelho quebrado (há muito tempo), quando já ninguém mais olhava para ele.

A frase de um sonho, de duas garotas passando em passo apressado: “...e aí vou poder comprar aquele...” – e entraram no 2016 que, por um acaso, mantinha a porta aberta mesmo fora do ponto.

Andei mais alguns passos, esperava que o sinal na Rio Branco fechasse.

Agora, três rapazes: “...mas eu disse pra ela que não tinha nada a ver. Só que ela queria sair mesmo assim...” – o outro completou: “Claro, né, se ela quer...” O terceiro tinha o olhar perdido em algum lugar do asfalto.

O sinal abriu, atravessei. Muitos sons, muita informação, do outro lado: a oferta de cds piratas, e vendedores debatendo: “Você pegou meu cliente...” Muitos sons, muitas ofertas, o cheiro sufocante da pipoca com queijo em inúmeras barraquinhas, ônibus parando para buscar seus passageiros, o sax perdido, anacrônico, nos degraus de entrada da estação Carioca do metrô.

“Claro que vou, cara, deixa separado pra mim” – alguém gritou no celular enquanto passava ao meu lado.

Muitas histórias.

Uma breve animosidade: na fila do bilhete, a moça achou que eu entrara na sua frente. Passada a surpresa do contato visual, da palavra dirigida a mim, fiz questão de lhe dar a preferência (e eu não havia furado a fila). Minha reação apavorou-a: estava preparada para um embate, não para uma proposta de paz. Comprou, atordoada, e seguiu, comentando algo com uma amiga. Algo que não pude ouvir.

Muitas pessoas, muita pressa.

Entrei no vagão, destino Zona Sul.

Semblantes pesados, conversas por telefone, pessoas de poucas palavras.

E, em silenciosa ironia, saímos na estação que recorda, sem querer, outro machado: o de Assis.

...


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