7 de jul de 2008

:: Gênese ::

Sempre tive certeza de que alguma tragédia ruidosa, abafada e poeirenta aconteceria perto de mim. Sempre. Por isso foi tão estranho ficar sem ação no dia em que, enfim, aconteceu.

Era meio-dia e alguma coisa (é dificil ser preciso nessas horas) de quarta-feira. Eu procurava o crachá para ir almoçar, quando os gritos vieram como ondas. Antes mesmo de pensar, todo o pessoal correu como num estouro de boiada à procura da saída, como se ir para a rua fosse a única coisa lógica a fazer. (Na verdade, talvez fosse a última.) Como já não havia luz, o instinto nos levou para as escadas, e também foi ele que fez a maioria de nós esquecer os modos civilizados e atropelar qualquer pessoa que estivesse à frente. Eu parti do sexto andar, mas os degraus até o térreo pareciam multiplicar-se a cada passo. Quando enfim saímos, o caos era completo: a escuridão anormal assustava e, como se não bastasse, uma poeira densa instalara-se no ar de tal forma que até para andar parecia preciso fazer força. Para onde quer que olhássemos, estavam pessoas caídas ou gritando, desnorteadas. Policiais tentavam dar algum tipo de orientação, mas como não sabiam qual poderia ser, repetiam, incansáveis, hipnóticos: "calma, calma!"

A frieza pela qual eu era constantemente acusado, enfim, parecia mostrar alguma utilidade.

A primeira coisa que pensei foi em tentar chegar à estação das barcas, achando que poderia estar funcionando, e atravessar a baía para casa. Muitos tiveram a mesma idéia, o que tornou impossível aproximar-se de qualquer embarcação. Os carros sobre a Perimetral pareciam abandonados, e a avenida havia transformado-se numa imensa passarela.

Resolvi seguir para ela.

Caminhava a passos largos, com o celular encostado na orelha, tentando uma ligação. Rede congestionada. Algumas pessoas pareciam não ter suportado a visão de tudo aquilo e abordavam umas as outras com perguntas sem sentido, e a mim, inclusive; mas antes que pudesse esboçar qualquer reação, já tinham partido procurando outro com quem falar.

O que eu via, então, eram homens engravatados deixando para trás seus carros importados, seus arquivos e seus laptops e seus American Express Platinum, tentando encontrar algo que fosse real em que se agarrar. Pela primeira vez em minha vida sequer cogitei a legitimidade de pegar algo que não é meu: a moto largada ao lado de uma barraquinha de lanches era um milagre que apenas o completo desespero generalizado pode ter ocultado dos olhos de todos.

Subi nela e segui pelo que chegou a me parecer o contrafluxo da multidão, mas não havia outra coisa a fazer. A escuridão e a confusão não me deixavam ter certeza de que a Ponte Rio-Niterói permanecia de pé, então a única forma de conferir seria seguindo até lá.

Acelerei, mas nem mesmo o ronco do motor e o barulho do vento superavam o som do choro de toda a cidade.

A ponte, afinal, estava inteira, e nos dois sentidos homens e mulheres andavam, corriam e, para meu horror, precipitavam-se no mar. As luzes estavam todas acesas como se fosse noite; mesmo assim, à essa distância, Niterói parecia ter sido tragada pelo mar.

Alcançar a cidade enfim me fez ter uma noção maior da extensão do que acontecera: o cenário não era diferente daquele do centro do Rio. As ruas estavam absolutamente tomadas, todos procurando algum sentido, alguma explicação, algum lugar para onde ir. Havia uma enormidade de carros batidos, água por todos os lados, e explosões perdidas aqui e ali.

Após o que pareceu uma eternidade, cheguei ao meu prédio. Subi as escadas correndo, tentando não antecipar o que poderia encontrar, e à porta senti minhas pernas fraquejarem.

Abri, apreensivo, e estavam todos lá, tão bem quanto poderiam estar. Eu era o único que, pela manhã, havia saído, e o bom senso dos que ficaram os fez imaginar que eu voltaria, quando o pânico se instalou.

Fechei a porta e enfim me permiti chorar. Percebi o quanto estava assustado, e também o quanto me aliviava ter encontrado os meus.

Como tudo vai ficar a partir de agora é impossível saber.
Mas que venham os dias. Seguiremos juntos por eles.


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