31 de ago de 2008

:: Mundo ::

A terceira porta era escura, parecia pesada e impossivelmente antiga. A maçaneta fora feita de um metal talvez dourado, mas já enegrecido pelo tempo. A chave que a fechadura esperava era grande, do tipo que é carregada sozinha e que provavelmente ficou muito tempo em gavetas reservadas apenas para si, distante dos olhares curiosos; de gaveta em gaveta veio atravessando eras, sua origem sendo transmitida de boca em boca por anciãos relutantes e, talvez (só talvez), enciumados. Eles não falavam muito sobre a terceira porta; mas, ora, se havia a chave, deveria haver a porta, não?



Havia, e estava ali.

Encerrada em poeira além da idade, ao final de um corredor que não poderia existir, mas que existia, e que rangia sob o peso de pés incrédulos. Encerrada em limo e algo como hera, que lhe cobria o topo e a base, que se esgueirava pelos lados e estendia-se, orgulhosamente, por todo o comprimento do tal corredor, até onde os olhos alcançavam.

Ele, com a chave em riste, confundia realidade e ilusão: temia ser toda a visão algum tipo de delírio, como se sua mente quisesse compensar-lhe o esforço, e para tentar convencer a si mesmo, tocava a madeira úmida da porta, o limo, as paredes, e tentava olhar pelo buraco da fechadura. Três dias - ele lembra - três dias caminhou em linha reta pelo corredor. A cada passo, sentia como se o lugar caçoasse de sua sanidade, mostrando a cada segundo de cada minuto de cada hora o mesmo cenário, com as mesmas poças e marcas na parede, com o mesmo cheiro de limão, açúcar e pó, com a mesma temperatura insuportavelmente amena e o mesmo som de gotas d'água caindo em algum lugar próximo mas não visível, sempre no mesmo exato espaço de tempo.

Três dias.
E, agora, encarava a porta.

Retirou da bolsa de couro o pequeno embrulho de veludo vinho, abriu-o e segurou a robusta chave. Era perfeita para a fechadura.

Ele a encaixou, e girou. Com um som de protesto, a porta avisou que destrancara.

Com a mão na fria maçaneta, ele suspirou.
Girou, e abriu.


ººº

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