4 de ago de 2008

:: R. ::

"30 de julho de 1854

As noites são tão longas que às vezes me parece não haver dia entre uma outra. Além da escuridão infindável, a estação das chuvas parece igualmente interminável: não há meios de vencer as goteiras, e a cada novo período de descanso, vejo-me obrigado a mudar de lugar a esteira onde durmo. Impedido pelo cansaço e pelas águas de aventurar-me à noite pela região, aprendi a tirar proveito da situação: em troca de alguma caça, consegui um lampião que me tem feito companhia, e à luz do qual leio minha Bíblia e escrevo algumas notas. Venho fazendo também um pequeno desenho, um mapa, para ter certeza de por onde já passei. Hei de contar para nossos filhos, com a ajuda do caderno e das nossas cartas, a história de como chegamos aonde chegarmos.

A estada parece pronunciar-se para além da sanidade, mas sei que não para além do que sonhamos, para além daquilo que prometi a você e ao que empenhei a confiança do seu pai: faltam-me palavras para agradecer o suficiente a ambos. Ainda que eu saiba que não há viva alma por boas milhas em qualquer direção, faço questão de trazer as ferramentas que me foram dadas por ele, apesar do peso, todos os dias para a cabana; sinto, assim, como se ele próprio caminhasse comigo por todo o caminho, e me incentivasse a continuar um pouco mais.

Nos breves dias onde a chuva não cai, costumo demorar um pouco mais a lançar-me no trabalho, preferindo realizar algumas melhorias por aqui: as paredes já não balançam tanto, mesmo sob forte vento. Construí, também, um pequeno abrigo: há algumas semanas tenho sido visitado por um lobo que, inexplicavelmente, mantém-se à distância, me observando quase todos os dias. Fiz o abrigo na esperança de que ficasse lá em algum momento. Nesta solidão que supera com facilidade a prudência, passei a deixar alguma carne do lado de fora da cabana, e ouço quando ele a vem buscar. Ainda não o vi no abrigo, mas sei que já esteve lá: em uma manhã, o pano que deixei dentro dela estava ainda morno. Pensei em batizar meu novo amigo, mas me ocorreu pedir a você que o faça: será reconfortante ter mais esse elo de familiaridade por perto.

Vejo que, na cidade, essa minha insistência não se sabe no quê está despertando curiosidade. Quando vou até lá, o que é cada vez mais raro, gosto de me manter silencioso e distante: o mistério assusta, e prefiro pagar o preço da solidão, sendo visto como louco, a despertar a cobiça daqueles que mais cedo ou mais tarde aparecerão para descobrir a que vim. Além do mais, resta sempre a esperança de que esta carta seja uma das últimas a levar as novidades que, então, poderão ser divididas à mesa do jantar.

Quanto ao que disse sobre Daniel, lembro-me do alerta que fez antes que embarcássemos. O merceeiro, homem que me parece correto e um dos poucos com quem falo (por motivos óbvios), enfim sentiu-se à vontade para dizer que estranhara quando o viu ir embora. Estive lá para comprar charque, e aparentemente o bom comerciante por algum motivo ansiava dizer-me o que disse, porque usou a carne como pretexto para puxar o assunto: disse que Daniel estivera ali e também comprara charque, além de cerveja, em quantidade, antes de partir para os trens. Disse que parecia ansioso e não dava conversa, limitando-se a pagar além do necessário e a sair sem esperar pelo troco. Respondi que tudo me parecia muito estranho, mas que era perigoso partir para qualquer julgamento. Seja como for, meus dias estão entregues às mãos de Deus e por isso não nutro qualquer temor.

Você não pode calcular a felicidade que me traz ver resolvida, enfim, a questão com Henrieta. Como já lhe disse, muito tem entrado em perspectativa neste tempo: o que realmente tem ou não tem valor, o que é importante alimentar e o que é preferível deixar desaparecer. Por mais isto, obrigado. Creio, também, ter recebido todos os potes da compota. Me permiti comer um por inteiro, de uma só vez, e confesso que o fiz com lágrimas nos olhos, num misto de felicidade e saudade. Posso afirmar que cheguei a ver sua avó preparando os potes, e você pedindo a ela que o fizesse. Já os outros fui consumindo aos poucos, invariavelmente relendo suas palavras, e imaginando a delicadeza das suas mãos apoiadas sobre o papel, à luz das velas refletidas em seus olhos.

Ouço barulho na porta. Meu novo amigo veio buscar o jantar.

A chuva está mais forte agora. Prefiro terminar esta carta aqui, antes que alguma água caia sobre ela e as palavras se percam.

Agradeça à sua maravilhosa avó pelo carinho. Agradeça, novamente, a confiança do seu pai. Agradeça, aliás, a todos por não apenas entenderem o que pretendo mas por darem apoio a este que mal entrou para a família. Todos vocês estão sempre em meu coração e em minhas orações.

E você, também em meu espírito.

Com o amor que não pode se expresso em palavras,

R."


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