29 de set de 2008

:: Aurora ::

Ele voltou à rua onde morou na infância.
Lembrava do prédio amarelo, das janelas marrons e dos carros velhos, imóveis há décadas, estacionados sobre a calçada. Lembrava da portaria e dos degraus de granito, lembrava da textura das paredes e do cheiro frio. Lembrava da porta escura do apartamento, lembrava do 601 em metal envelhecido.

Tocou a campainha, constrangido, pediu para olhar.
Não estava lá.

Caminhou para a praia, desceu a escada de pedra e alcançou a areia. Molhou os pés na água, já que não mergulharia, e deixou que as minúsculas ondas lhe molhassem a barra da calça.

Não estava lá.

Foi à boate da sua adolescência, hoje um restaurante, e deteve-se frente à fachada. De olhos fechados, pôde escutar mais uma vez a música alta, e lembrar da penumbra, e do esforço para se fazer ouvir em meio à multidão e aos hormônios.

Sorriu, e mais nada.

Passou por seu colégio: já não havia mais o pátio onde corria, e mesmo a mangueira intocável dera lugar a mais uma vaga no estacionamento. O azul do prédio desvaneceu, veio um cinza arrogante, pretenso símbolo de tradição e modernidade.

Saiu dali e procurou pelas praças, e pelo mercado, e pelas ruas.

Já não encontrava mais.

Começou a chuva.
Agora, talvez, outro dia.


ººº

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