22 de set de 2008

:: Distopia ::

Ela acordou enquanto ele ainda dormia a sono solto: àquela hora, apenas os sons dos carros que eventualmente passavam, perdidos, procurando algum destino.

Sentou-se na cama para vê-lo, suspirou ao notar o lençol movendo-se ao ritmo da respiração. Levantou-se e, nua como estava, parou à porta para pensar, e pensou, e caminhou em absoluto silêncio, e vestiu-se; as roupas, quando horas antes foram jogadas no chão, desarrumaram os sapatos sob a cama, que ela agora reorganiza cuidadosamente.

E haviam derrubado o que estava sobre a cômoda, e derramado uns tantos perfumes, e arrastado o móvel, tal era o ímpeto, a paixão, a carência, a noite.

Mas agora, ela seca do chão o perfume, e recoloca cada frasco em seu lugar, e devolve suavemente a cômoda à posição original. As toalhas caídas no banheiro, dobra e recoloca nos ganchos. Ajeita os vidros. Vai à cozinha e tira das mesas e das cadeiras e das louças qualquer rastro de si.

Pensa no que fez, olha o que fez. Bom o suficiente.

Pendura a bolsa no ombro e, em silêncio, passa pela porta. Fecha, solenemente.

Em seu quarto, ele se vira, se ajeita, segue em seu sono.

E ela jamais estivera ali.

ººº


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