27 de out de 2008

:: Minueto ::

Ele passou novamente pela rua da esquerda, em frente ao Café, e olhou pela janela, por entre as letras douradas que batizam o lugar, e a viu lá dentro, como sempre via, e sabia que ela pediria, logo, um capuccino - com bastante canela, por favor.

Houve vezes em que ele próprio entrou e pediu. E em uma, ao lado dela. Foi quando quase conversaram, porque ela olhou e sorriu, e porque ainda disse alguma coisa simpática, uma pequena brincadeira, como "você tem bom gosto" ou algo assim, e ele sorrira de volta, é verdade, mas as palavras todas se esconderam envergonhadas em algum lugar, recusando-se a sair, e quando enfim conseguiu encontrar alguma delas para lhe ofertar, ela já pegara as moedas (pagava sempre com dinheiro trocado), vestira as luvas e ia saindo do lugar.

Ele cobra a si mesmo todo o dia, todos os dias, por causa do seu estúpido silêncio naquele momento. Mas ela está ali dentro agora, como sempre está, e ele quer entrar, e talvez até explicar o motivo do seu mutismo, e quem sabe ela o acharia algo encantador ou simpático ou ao menos curioso, e talvez pudessem dar uma risada descomprometida, e então ele se ofereceria para pagar o capuccino daquele dia, e quem sabe ele a acompanharia até a entrada da editora e poderiam (ora, por que não?) almoçar junto um dia desses, e por que não hoje, então combinariam às 13h ali mesmo em frente porque ele conhece um lugarzinho ótimo, bem perto, pequeno e muito charmoso, que ela com certeza adoraria, e esse dia frio como o diabo enfim poderia ser proveitoso para alguma coisa, porque o frio é acolhedor quando bem usado e um excelente cupido se você tiver as palavras certas para prová-lo.

Isso, claro, se as palavras, hoje, saírem. E se, antes de preocupar-se com isso, ele conseguir atravessar a porta, alcançar o balcão e pedir o capuccino.

Lá dentro, ela pede o seu.

E ela já o viu pela vitrine, embora receie olhar demais e parecer assustada, e assim acabar por assustá-lo também a ponto de fazê-lo virar as costas e ir embora. Ela cobra a si mesma todo o dia, todos os dias, por causa da idiotice da frase que falou quando enfim teve coragem (haveria algo mais primário do que falar sobre bom gosto?), já que pretendia falar com ele há tanto tempo, curiosa que estava com seu jeito, sempre carregando um livro debaixo do braço (da última vez, era "A Ratazana", de Günter Grass), carregando eletricidade no olhar, carregando expectativa (pelo quê?) nos ombros. Ela pensa que, se ele entrasse, talvez pudesse puxar assunto brincando justamente com o que dissera, e talvez ele lembrasse da ocasião, e talvez rissem juntos, e a partir daí poderiam conversar e, por que não, dividir a mesa ali enquanto sorviam seus capuccinos, e ainda caminhar um pouco pela manhã fria antes de serem absorvidos pelo sistema, ela por sua editora e ele no que fosse, e talvez combinar um almoço, por que não?

Mas, antes, ele precisava entrar.

Ela arriscou olhar pela vitrine, e ele a viu olhar, e ela escancarou um sorriso disfarçado e tímido.

E, então, ele entrou.

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20 de out de 2008

:: Cantilena ::

Ele trazia consigo uma bolsa que não sabia se abriria, com fotos que não sabia se mostraria, e se mostrasse, se o faria usando os óculos que agora usava; da última vez em que se viram, seus olhos eram outros, mais aguçados e talvez mais vivos, mais curiosos e talvez mais negros, mais inquisidores e, talvez, mais meigos. Trazia lembranças que queria contar e outras que talvez não (ainda que dessas lembrasse bem). Trazia notícias do que conquistou, dentre as coisas que queria conquistar, e notícias de como alguns planos mudaram e dos motivos que os fizeram mudar. Trazia notícias de outros com quem dividiram seus dias, mas que os dias haviam afastado de si.

Trazia, mais do que tudo, uma expectativa. Tinha também, alimentada com preocupação, a idéia de qual seria a expectativa dela; falaram sim, e muito, por e-mail e por telefone e por todo meio de comunicação disponível (E qual fora o custo para aprender a usar a maioria deles!), mas enfim chegou o momento em que era preciso olhar, já que o olhar carrega tantos dos sentidos que as palavras não comportam, e foi a este momento que enfim chegaram, e é agora.

Ela viria.

Pensava no que faria quando ela o visse. Afinal, seus cabelos negros já haviam perdido a batalha contra os brancos há algum tempo, e a pele não mais mantinha o mesmo viço de antes (ainda que ele estivesse muito, muito bem). Procurava perscrutar as nuances que sua personalidade poderia ter adquirido: mas era difícil e cansativo e frustrante perceber-se incapaz de notá-las; talvez, afinal, não tenha mudado tanto assim.

Ele lembra: separaram-se há tanto por causa de uma discussão. Mas o motivo que a gerou parece tão impossível recordar que teme, mesmo, jamais ter existido.

Ele pensa nela e em como estaria agora. Sim, tem algum medo de não reconhecê-la.

O coração batia nervoso como há muito não fazia, e sentia formigar as mãos e sacudia as pernas durante a espera, em seu terno e gravata, na cadeira do Café.

Ele estava munido de flores e de sorrisos.

Foi quando abaixou o olhar para ver se tudo estava em ordem e, ao levantá-lo, viu-a, sem sobreaviso, materializada instantaneamente à sua frente.

Ela o viu. Sorriu.
Ele a viu. Sorriram.

E a cada minuto em que se olhavam, em seu indevassável silêncio, vinha a certeza de que os anos não os afastaram de quem foram, de quem são, e de quem, agora, serão.

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13 de out de 2008

:: Parágrafo ::

Ah, sim, claro que penso em toda essa beleza que é dos outros; mas que venha a mim como vier, se vier, e como quiser, se quiser, pois já não tenho forças em mim para exigir que venha ou mesmo pedir, humildemente, que o faça; digo então que já tanto faz ou tanto fez ou ainda que me importa pouco o que virá e o que trará consigo; basta, assim, a presença, mesmo que anônima e um tanto inerte, mesmo que incoerente ou repetitiva, mesmo que seja esse mais do mesmo que no final não é nada e menos ainda alguma coisa que mova em mim um pensamento ou sentimento que faça sair dos meus lábios um resquício e intuição que seja, para que no fim haja o êxtase ou o gôzo ou qualquer tipo de sentimento de satisfação que não este, completo em si mesmo, absoluto, inequívoco e irrevogável, talvez arrogante, talvez a certeza impenetrável e causticante que encerra em si mesma toda essa miríade de dores e amores e devaneios, de pretensões infundadas e de sonhos inatingíveis, de auroras escondidas e de crepúsculos afogados nas águas dessa chuva cristalina ininterrupta, gelada como a lembrança que guardo de você, agora já pálida e distante, constante, oculta pelas memórias de quando se falava tanto, de onde falávamos tanto, onde éramos tantos e todos e toda a vida ainda tínhamos pela frente até que chegamos a este agora teimoso e insistente, que recusa-se a admitir o próprio fim e assim permitir, benevolente, a vinda e a chegada do fresco e do novo, do ar vespertino e bondoso, do bálsamo das novas páginas em branco e dos novos capítulos a escrever, que hora escrevo ou que ao menos me disponho a escrever, enquanto esta ciranda impetuosa não me rouba o direito de na minha loucura de sentidos reivindicar apenas este, legítimo, puro e pétreo, de simplesmente, comigo, ser.

6 de out de 2008

:: Crisálida ::

Permanecia inerte, sob pó e papelão.

Seu endereço, aquela rua onde todos passam; mas, ainda assim, ninguém o vê. Afinal, há aqueles que crêem pagar por esse direito, o de não vê-lo, quando deixam o troco do croissant no copo de papel perto da modesta placa que pede bênçãos divinas sobre tais almas bondosas.

Somente ele, por enquanto, conhece a ironia daquela frase.

Para os que passam, não parece haver alguém ali; tudo é parte do cenário urbano, como o são os pontos de ônibus, ou as marquises, ou os semáforos e as placas e as faixas de pedestres e lixeiras e cães que dormem uns sobre os outros em qualquer degrau que os afaste alguns centímetros do chão.

E não sabem, nem lhes importa saber, quem ele é, ou por onde andou, ou se já esteve com reis e ladrões, ou se viu sóis apagarem e reinos nascerem; não lhes importa conhecer o que carregam seus pensamentos, não lhes importa pensar que ninguém nasce naquela condição ou ainda quais foram aquelas que o levaram até ali. Não lhes importa conhecer sua aparência, e é como deve ser, até que todas as perguntas já estejam respondidas ou que a ousadia para fazê-las não encontre mais espaço.

"Breve" - pensa - "breve."
E, sozinho, permite-se sorrir em silêncio.

Então esconde-se, protege-se nas caixas e no plástico, foge do frio da noite e da indiferença do mundo. Ouve os sons dos carros, dos passos que se apressam quando próximos a si, da música que toca, incansável, em algum rádio em alguma janela por ali.

E dorme, esquecendo-se dos rótulos que lhe dão, das certezas infundadas que têm a seu respeito e de todos os preconceitos que o cercam.

Dorme, sabendo que não é aquilo que aparenta; e que, a seu tempo, enfim se mostrará.

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