20 de out de 2008

:: Cantilena ::

Ele trazia consigo uma bolsa que não sabia se abriria, com fotos que não sabia se mostraria, e se mostrasse, se o faria usando os óculos que agora usava; da última vez em que se viram, seus olhos eram outros, mais aguçados e talvez mais vivos, mais curiosos e talvez mais negros, mais inquisidores e, talvez, mais meigos. Trazia lembranças que queria contar e outras que talvez não (ainda que dessas lembrasse bem). Trazia notícias do que conquistou, dentre as coisas que queria conquistar, e notícias de como alguns planos mudaram e dos motivos que os fizeram mudar. Trazia notícias de outros com quem dividiram seus dias, mas que os dias haviam afastado de si.

Trazia, mais do que tudo, uma expectativa. Tinha também, alimentada com preocupação, a idéia de qual seria a expectativa dela; falaram sim, e muito, por e-mail e por telefone e por todo meio de comunicação disponível (E qual fora o custo para aprender a usar a maioria deles!), mas enfim chegou o momento em que era preciso olhar, já que o olhar carrega tantos dos sentidos que as palavras não comportam, e foi a este momento que enfim chegaram, e é agora.

Ela viria.

Pensava no que faria quando ela o visse. Afinal, seus cabelos negros já haviam perdido a batalha contra os brancos há algum tempo, e a pele não mais mantinha o mesmo viço de antes (ainda que ele estivesse muito, muito bem). Procurava perscrutar as nuances que sua personalidade poderia ter adquirido: mas era difícil e cansativo e frustrante perceber-se incapaz de notá-las; talvez, afinal, não tenha mudado tanto assim.

Ele lembra: separaram-se há tanto por causa de uma discussão. Mas o motivo que a gerou parece tão impossível recordar que teme, mesmo, jamais ter existido.

Ele pensa nela e em como estaria agora. Sim, tem algum medo de não reconhecê-la.

O coração batia nervoso como há muito não fazia, e sentia formigar as mãos e sacudia as pernas durante a espera, em seu terno e gravata, na cadeira do Café.

Ele estava munido de flores e de sorrisos.

Foi quando abaixou o olhar para ver se tudo estava em ordem e, ao levantá-lo, viu-a, sem sobreaviso, materializada instantaneamente à sua frente.

Ela o viu. Sorriu.
Ele a viu. Sorriram.

E a cada minuto em que se olhavam, em seu indevassável silêncio, vinha a certeza de que os anos não os afastaram de quem foram, de quem são, e de quem, agora, serão.

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